UE priorizou estabilidade e ajudou a legitimar autoritarismo de Erdoğan, aponta estudo
A União Europeia contribuiu para viabilizar a deriva autoritária em países como a Turquia — onde o presidente Recep Tayyip Erdoğan é acusado de instaurar um governo de mão única — ao colocar sistematicamente o controle migratório, a segurança e a estabilidade regional acima dos padrões democráticos. É o que afirma um novo estudo acadêmico publicado na terça-feira.
O artigo, intitulado “A armadilha da estabilocracia: como a UE viabiliza a autocratização em sua vizinhança”, foi publicado em 21 de abril no periódico European Politics and Society por Florian Bieber, da Universidade de Graz, e Cengiz Günay, do Instituto Austríaco de Assuntos Internacionais.
Os autores argumentam que a política de vizinhança da UE tem favorecido cada vez mais o que chamam de “estabilocracia” — uma dinâmica em que Bruxelas tolera ou até legitima governos autoritários em troca do que considera estabilidade.
O artigo examina a Sérvia, a Tunísia e a Turquia. No caso turco, os autores afirmam que o deslize do país em direção ao autoritarismo começou gradualmente no final dos anos 2000 e se acelerou enquanto as instituições da UE respondiam com pouco mais do que críticas brandas, mantendo os laços focados em migração e segurança.
A crise dos refugiados de 2015 e o acordo de migração UE-Turquia de 2016 emergem como um ponto de inflexão no estudo. Os autores afirmam que Bruxelas suavizou suas críticas ao declínio democrático da Turquia ao buscar a cooperação de Ancara para conter o fluxo de refugiados para a Europa.
Eles citam uma conversa vazada envolvendo o presidente Erdoğan, o então presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker e o então presidente do Conselho Europeu Donald Tusk, indicando que ela teria demonstrado que a Comissão adiou um relatório crítico sobre a Turquia a pedido de Erdoğan, para depois das eleições de novembro de 2015.
Nessa troca, os autores afirmam que Juncker ofereceu mais financiamento para refugiados, novos capítulos de negociação e liberalização de vistos em troca de um acordo migratório.
Os autores também observam que o acordo de migração de 2016 foi firmado sem a aprovação do Parlamento turco nem do Parlamento Europeu — um exemplo, segundo eles, de negociação executiva que contornou a supervisão democrática.
À medida que a repressão se aprofundou após os protestos do Parque Gezi em 2013 e o golpe fracassado de 2016, as críticas da UE permaneceram contidas, diz o artigo. Ele argumenta que, embora os relatórios da Comissão Europeia tenham documentado falhas democráticas e jurídicas, ainda assim ajudaram a preservar uma “fachada de democracia” ao evitar descrever a Turquia abertamente como autoritária.
O artigo conecta esse padrão à repressão atual na Turquia. A prisão do prefeito de Istambul Ekrem İmamoğlu, principal rival político de Erdoğan, e a pressão sobre o principal partido de oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP), representam a ilustração mais clara até agora da preferência da UE pela estabilidade em detrimento da democracia, segundo os autores. Eles alertam que a Turquia está agora à beira de cruzar de um sistema autoritário personalizado para uma autocracia declarada.
Os autores não chegam a culpar a UE por causar o autoritarismo na Turquia, na Sérvia ou na Tunísia. Seu argumento é, antes, que ao manter laços profundos com governos em deriva autoritária, Bruxelas concedeu-lhes legitimidade externa ao mesmo tempo em que limitou suas próprias opções de longo prazo, por ter se apoiado em acordos firmados com executivos poderosos.
O estudo surge em um momento em que críticas semelhantes têm sido dirigidas aos Estados Unidos. Tom Barrack, embaixador americano na Turquia e enviado especial para a Síria, afirmou no Fórum de Diplomacia de Antalya, em 17 de abril, que os únicos sistemas políticos que funcionaram no Oriente Médio foram “regimes de liderança forte”, incluindo monarquias e “repúblicas monárquicas”.
As declarações geraram forte reação na Turquia, especialmente por parte do CHP. O líder do partido, Özgür Özel, afirmou que Barrack estava elogiando a monarquia em uma república erguida sobre as ruínas do Império Otomano, chamou-o de “persona non grata para a democracia turca” e exigiu uma retratação e um pedido de desculpas.
As críticas centraram-se na percepção de que o enviado americano havia efetivamente endossado o modelo de governo centralizado de Erdoğan em um momento em que a oposição turca afirma que as instituições democráticas estão sob severa pressão.
Em declarações à Fox News Digital, Barrack defendeu o comentário como uma “avaliação realista”, argumentando que os países que tentaram adotar a democracia ao estilo ocidental após a Primavera Árabe haviam, em grande medida, fracassado, enquanto as monarquias do Golfo proporcionaram segurança, crescimento e modernização. Ele também citou a Turquia como exemplo de liderança centralizada forte que produziu estabilidade e influência regional, embora tenha reconhecido que críticos a descrevem como um regime híbrido com características autoritárias.



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