Governo Erdogan usa ataques sangrentos em escolas para justificar repressão a VPNs e censura na Internet na Turquia em 2026
Levent Kenez/Estocolmo
O governo turco está preparando um novo marco regulatório que exigirá que provedores de redes privadas virtuais (VPN) obtenham licenças e cumpram obrigações definidas pelo Estado, com autoridades alertando que serviços que não atenderem aos requisitos serão bloqueados em todo o país. A medida vem após ataques mortais em escolas em Şanlıurfa e Kahramanmaraş na semana passada e está sendo apresentada como parte de um esforço mais amplo para proteger menores de conteúdos nocivos online.
VPN é uma ferramenta de software que direciona a conexão de internet do usuário por meio de servidores criptografados, mascarando sua localização e permitindo acessar sites como se estivesse em outro país. Muitas pessoas na Turquia dependem de VPNs porque milhares de sites, plataformas de notícias e postagens em redes sociais são bloqueados pelo governo. Sem VPN, usuários frequentemente não conseguem acessar fontes independentes de notícias, vozes de oposição ou conteúdos globais restritos no país.
Uma série de ataques violentos em escolas na semana passada atingiu os distritos de Siverek, em Şanlıurfa, e Onikişubat, em Kahramanmaraş, resultando em uma tragédia nacional. A crise começou em 14 de abril, em uma escola em Siverek, quando um ex-aluno de 19 anos, armado, tentou um ataque que felizmente foi frustrado sem vítimas fatais. No entanto, a violência se intensificou no dia seguinte em uma escola de ensino fundamental em Kahramanmaraş, onde um estudante de 14 anos abriu fogo contra alunos e funcionários. Segundo relatos oficiais, o ataque matou nove pessoas: oito estudantes e um professor.
A proposta de regulamentação de VPN faz parte de um pacote de políticas mais amplo que inclui novos controles sobre o acesso móvel. Um sistema planejado de “chip infantil” permitiria aos pais restringir o acesso a determinadas categorias de conteúdo no nível da rede. Os controles seriam implementados por operadoras de telecomunicações, limitando a exposição a materiais definidos pelas autoridades como prejudiciais ou inadequados. Diversos serviços de VPN já estão bloqueados na Turquia; no entanto, alguns ainda permanecem acessíveis e em uso.
A iniciativa, que deve ser apresentada em breve ao parlamento, colocaria pela primeira vez os provedores de serviços sob supervisão direta do Estado. As autoridades afirmam que os provedores licenciados deverão cumprir a legislação turca, incluindo restrições de conteúdo e possíveis obrigações de dados. Aplicativos de VPN que não obtiverem licença ou não atenderem às condições devem ser bloqueados completamente.
Segundo a Associação pela Liberdade de Expressão, vários serviços de VPN estão atualmente bloqueados na Turquia.
O governo vinculou as novas medidas às conclusões das investigações dos ataques escolares, afirmando que os autores foram expostos a conteúdo digital violento. As autoridades não divulgaram relatórios forenses detalhados, mas enfatizaram o papel de dispositivos móveis e do acesso irrestrito à internet na formação do comportamento de menores.
A Turquia já opera um dos ambientes de internet mais restritivos entre países com eleições competitivas. Dados da Autoridade de Tecnologias da Informação e Comunicação (BTK) mostram que mais de 1 milhão de sites e domínios foram bloqueados desde 2007. O grupo de monitoramento EngelliWeb relatou que, até 2024, mais de 1.264.506 URLs individuais estavam inacessíveis, além de dezenas de milhares de postagens em redes sociais removidas ou restritas em plataformas como X, YouTube, Facebook e Instagram.
Restrições temporárias em nível nacional a grandes plataformas tornaram-se uma prática recorrente. O acesso a X, YouTube e Instagram já foi reduzido ou bloqueado durante eventos políticos, operações de segurança e emergências nacionais. Em 2023, o acesso ao X foi restringido após dois grandes terremotos, limitando o fluxo de informações em tempo real durante os esforços de resgate.
Os serviços de VPN tornaram-se uma ferramenta essencial para usuários que buscam contornar essas restrições. A DataReportal relatou que os downloads de VPN na Turquia aumentaram mais de 400% durante grandes bloqueios. Os dados indicam que milhões de usuários dependem desses serviços para acessar veículos de notícias, contas de redes sociais e sites que de outra forma estariam indisponíveis no país.
Do ponto de vista técnico, licenciar e bloquear VPNs dificilmente impedirá completamente a evasão. Protocolos de VPN podem ser modificados para evitar detecção, e o tráfego criptografado pode ser roteado por sistemas alternativos que não dependem de provedores comerciais. Ferramentas como Tor, Shadowsocks e serviços de DNS criptografado permitem mascarar a atividade online de formas difíceis de distinguir do tráfego normal sem sistemas extensivos de monitoramento.
Mesmo que aplicativos populares de VPN sejam removidos das lojas ou bloqueados no nível da rede, novos serviços podem surgir rapidamente, muitas vezes distribuídos por canais descentralizados ou hospedados no exterior. Usuários também podem configurar servidores VPN privados usando infraestrutura estrangeira, contornando restrições impostas a serviços comerciais. No entanto, como não é realista esperar que todos os usuários acompanhem a tecnologia de perto, muitas pessoas ainda ficarão expostas à censura.
O ministro da Justiça turco, Akın Gürlek, afirmou que o governo planeja exigir que usuários de redes sociais façam login usando números de identificação nacional. Contas não vinculadas a identidades verificadas poderão ser encerradas após um período de transição.
As autoridades dizem que a exigência de identidade visa combater desinformação e conteúdo abusivo. O Código Penal turco inclui o Artigo 217, que prevê penas de até três anos de prisão para quem disseminar informações consideradas enganosas em relação à ordem pública ou à segurança nacional. Registros judiciais mostram que a norma já foi aplicada em casos envolvendo jornalistas e usuários de redes sociais.
A combinação de verificação de identidade e restrições a VPNs mudaria significativamente a forma como os usuários acessam plataformas online na Turquia. Contas anônimas, amplamente usadas para expressão política, se tornariam difíceis de manter em um sistema que vincula diretamente a atividade do usuário a identidades verificadas.
O arcabouço regulatório digital da Turquia vem se expandindo de forma constante nos últimos anos. Uma lei de 2020 exigiu que empresas de redes sociais nomeassem representantes locais e cumprissem ordens judiciais para remover conteúdo, sob risco de redução de banda. Registros parlamentares mostram que plataformas globais como TikTok e Google têm cumprido exigências legais turcas, incluindo remoção de conteúdo e solicitações de dados.
Mudanças em algoritmos de plataformas também afetaram a visibilidade da mídia. Diversas organizações de notícias turcas relataram quedas de tráfego de até 80% após atualizações do Google News e Discover em 2025, segundo declarações apresentadas ao parlamento.
Os ataques escolares em Şanlıurfa e Kahramanmaraş intensificaram o debate público sobre segurança online e exposição de menores a conteúdos digitais. A resposta do governo vincula diretamente essas preocupações ao acesso à internet e à regulação de plataformas.
Em última análise, restrições ao acesso às redes sociais na Turquia são amplamente vistas como parte de uma abordagem política mais ampla do governo do presidente Recep Tayyip Erdogan para controlar vozes dissidentes, incluindo jornalistas e veículos de mídia que operam do exterior. A expansão do controle digital reflete um ambiente midiático em que televisão e imprensa tradicional permanecem amplamente sob influência pró-governo, tornando as plataformas online um dos poucos espaços restantes para expressão política alternativa.
Uma mudança política recente na Hungria oferece um exemplo contrastante de como plataformas digitais podem influenciar resultados eleitorais quando movimentos de oposição ganham força. Na eleição mais recente, o primeiro-ministro Viktor Orbán e seu partido Fidesz foram derrotados após 16 anos no poder, com a oposição conquistando a vitória. Durante a campanha, grupos de oposição utilizaram intensamente redes sociais como o Facebook para se comunicar diretamente com eleitores, organizar mensagens políticas e contrabalançar um cenário midiático tradicional dominado por veículos alinhados ao governo. A campanha liderada por figuras da oposição demonstrou como plataformas online podem se tornar instrumentos centrais da competição política quando o acesso à mídia tradicional é desigual — um desenvolvimento observado de perto em Ancara.



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