Ex-presidente do Supremo e ex-ministro do AKP criticam Judiciário e sistema presidencial como “desastre”
Data: 6 de abril de 2026
O ex-presidente do Tribunal Constitucional Haşim Kılıç e Hüseyin Çelik, membro fundador do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) e ex-ministro da Educação, fizeram críticas contundentes ao Judiciário e ao sistema presidencial turcos, descrevendo o modelo atual como um “desastre” e alertando para uma erosão crescente dos direitos fundamentais, conforme relatou a agência de notícias Anka.
Em um evento realizado no domingo, em Ancara, intitulado “A Política Precisa Mudar Primeiro”, organizado pela Plataforma pela Democracia, os dois denunciaram o que descreveram como uma crise judiciária em aprofundamento e o enfraquecimento das salvaguardas democráticas sob o sistema presidencial adotado após o referendo constitucional de 2017.
Kılıç afirmou que a liberdade de expressão na Turquia deteriorou-se de forma significativa, argumentando que a sociedade passou de exercer o direito à livre manifestação para recorrer ao que chamou de “direito ao silêncio”.
Segundo ele, antes das emendas constitucionais aprovadas em 2010 prevalecia a compreensão de que a fé deveria se restringir à esfera privada; depois das emendas, essa tendência evoluiu para pressionar as pessoas a guardarem os próprios pensamentos, estreitando progressivamente a liberdade de expressão.
Kılıç também criticou o Tribunal Constitucional pelo que descreveu como uma postura “tímida e ansiosa” diante de violações de direitos, alertando que a omissão do Tribunal em exercer autoridade sobre instâncias inferiores compromete sua reconhecida vocação libertária e mina a confiança pública no Judiciário.
“As violações identificadas pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos [TEDH] precisam ser implementadas com coragem, e as injustiças precisam ser reparadas. Os problemas relacionados ao Judiciário não são mais questões que podem ser postergadas”, acrescentou.
As declarações do ex-presidente do Tribunal ocorrem em meio a uma controvérsia contínua sobre o descumprimento pela Turquia de decisões do TEDH, incluindo casos de grande repercussão — como o do empresário Osman Kavala, que permanece preso apesar de uma decisão de 2019 declarando sua detenção arbitrária e politicamente motivada.
Kavala advertiu recentemente, em declarações publicadas pelo portal T24, que os argumentos apresentados pela Turquia em audiência em Estrasburgo refletiam uma compreensão “perigosa” da justiça, semelhante à doutrina conspiratória da era stalinista, e afirmou que o desrespeito contínuo ao direito internacional dos direitos humanos causa danos cada vez mais profundos ao sistema jurídico turco.
Preocupações semelhantes foram levantadas no caso do político curdo preso Selahattin Demirtaş, cuja liberdade foi negada repetidas vezes apesar de múltiplas decisões do TEDH reconhecendo violações de seus direitos. Especialistas jurídicos e ordens de advogados ressaltaram que tais decisões são vinculantes tanto por convenções internacionais quanto pela constituição turca.
Críticos afirmam que o descumprimento das decisões do tribunal superior reflete um padrão mais amplo de influência política sobre o Judiciário, sobretudo em casos envolvendo figuras da oposição. As autoridades turcas negam tais acusações e insistem que o Judiciário opera de forma independente.
Políticos da oposição têm enfrentado uma série de investigações, detenções e prisões nos últimos anos — o que críticos descrevem como uma tentativa de sufocar a dissidência e enfraquecer os rivais eleitorais.
No mesmo evento, Çelik mirou diretamente o sistema presidencial, argumentando que ele corroeu o mérito institucional e a responsabilização.
“Quando os líderes concentram o poder em suas mãos, os princípios de mérito e competência desaparecem”, disse. “Em seu lugar vêm a lealdade e a obediência absolutas. Criticar o líder do partido é tratado como traição.”
Çelik descreveu o sistema atual como incompatível com a governança democrática.
“Este suposto sistema presidencial ‘à moda turca’ foi um desastre para a Turquia”, afirmou. “Você é o presidente e tem um partido. Você fala o que quiser sobre a oposição, mas quando eles respondem, vira insulto ao presidente.”
A Turquia transitou de um sistema parlamentar para um presidencialismo executivo após o referendo de 2017, concedendo amplos poderes ao presidente Recep Tayyip Erdoğan e eliminando muitos dos mecanismos tradicionais de freios e contrapesos, segundo críticos.
Alguns analistas sustentam que o sistema concentrou autoridade excessiva em um único cargo, enfraquecendo a fiscalização institucional e contribuindo para a queda da confiança nas instituições políticas.
Analistas também argumentam que a transição da Turquia para o presidencialismo em 2018 pode ser um fator central por trás das dificuldades econômicas do país.
O país convive com inflação persistente de dois dígitos desde 2019. A taxa anual, que atingiu o pico de 85,5% em outubro de 2022, recuou ao longo dos anos e está atualmente em 30,87%, segundo dados oficiais.
A lira turca também perdeu mais de 130% de seu valor frente ao dólar desde meados de 2022, com a taxa de câmbio saltando de aproximadamente 17,5 para mais de 44 liras por dólar em cerca de quatro anos.
A insatisfação pública com a gestão econômica cresceu de forma significativa. Uma pesquisa realizada em 2025 pela ASAL Research constatou que apenas 13,2% dos entrevistados avaliaram positivamente o desempenho econômico do governo, enquanto 74,7% o classificaram como mal-sucedido — reflexo de uma preocupação generalizada com o custo de vida crescente.



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