Voz da Turquia

Notícias

 Últimas Notícias
  • Parlamentares da Europa pedem sanções contra juízes e promotores turcos por caso Kavala Parlamentares de países membros do Conselho da Europa propuseram sanções direcionadas contra juízes e promotores turcos por conta do descumprimento de decisões do Tribunal Europeu de Direitos Humanos no caso do filantropo Osman Kavala. A moção, assinada por 28 deputados de diferentes países europeus, pede o uso de medidas do tipo Magnitsky – como proibição de viagens e congelamento de ativos – contra autoridades envolvidas na manutenção de Kavala preso, mesmo após julgamentos de Estrasburgo condenarem sua detenção como violação de direitos humanos. O texto também aponta problemas sistêmicos no judiciário turco, citando milhares de casos semelhantes ligados à repressão pós‑golpe de 2016 e à perseguição de supostos seguidores do movimento Hizmet....
  • Metade dos turcos desconfia do Judiciário, com a confiança caindo para 36%, diz pesquisa Pesquisa de opinião de março de 2026 revela que metade dos turcos desconfia do Judiciário, com apenas 36% confiando nos tribunais, em um cenário de ampla erosão da confiança em instituições políticas, mídia e oposição. O levantamento mostra ainda alta confiança nas forças de segurança e reforça a ligação entre crise institucional, questões de justiça e desafios econômicos como inflação e desemprego na Turquia....
  • Governo Erdogan usa ataques sangrentos em escolas para justificar repressão a VPNs e censura na Internet na Turquia em 2026 Após ataques mortais em escolas de Şanlıurfa e Kahramanmaraş que mataram nove pessoas, o governo Erdogan propõe licenças obrigatórias para VPNs e bloqueio de serviços não conformes, alegando proteção a menores de conteúdo violento online, ampliando a censura em um país com mais de 1 milhão de sites bloqueados....
  • Turquia julga 168 ativistas por protesto contra violência contra mulheres em Istambul Um tribunal de Istambul aceitou a denúncia contra 168 ativistas — majoritariamente mulheres — que participaram de um protesto em 25 de novembro de 2024, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e agora enfrentam penas de até seis anos de prisão. A manifestação, impedida pela polícia com uso de força e gás de pimenta, terminou em detenções em massa após tentativas frustradas de leitura de um comunicado público. O caso ocorre em meio a crescentes preocupações sobre o aumento de feminicídios na Turquia, repressão a protestos e o enfraquecimento de proteções legais, agravado pela saída do país da Convenção de Istambul em 2021....
  • UE priorizou estabilidade e ajudou a legitimar autoritarismo de Erdoğan, aponta estudo Um estudo acadêmico recente argumenta que a União Europeia contribuiu indiretamente para o avanço do autoritarismo na Turquia ao priorizar estabilidade regional, controle migratório e segurança em vez de চাপ firme por padrões democráticos. Segundo os autores, especialmente após a crise de refugiados de 2015 e o acordo migratório de 2016, Bruxelas suavizou críticas ao governo de Recep Tayyip Erdoğan, mantendo cooperação estratégica enquanto instituições democráticas turcas se deterioravam. O conceito de “estabilocracia” descreve essa dinâmica, na qual a UE tolera líderes autoritários em troca de previsibilidade política. O estudo também aponta que essa abordagem deu legitimidade internacional ao governo turco e limitou a capacidade futura da UE de reagir à autocratização....
  • Turquia acusa Ocidente de proteger suspeitos do Hizmet após rejeições massivas de extradição O ministro da Justiça da Turquia, Akın Gürlek, criticou duramente aliados ocidentais por recusarem pedidos de extradição contra indivíduos ligados ao movimento Hizmet, acusado por Ancara de organizar o golpe fracassado de 2016. Apesar de quase 2.900 solicitações enviadas a 119 países, apenas três resultaram em extradição, refletindo a falta de reconhecimento internacional da classificação do grupo como terrorista. Enquanto a Turquia promete intensificar a perseguição global ao movimento, tribunais europeus e organizações de direitos humanos continuam alertando para violações legais e abusos sistemáticos, incluindo detenções arbitrárias, uso controverso de provas e transferências forçadas de suspeitos....
  • Turquia reforça a segurança nas escolas após tiroteios fatais A Turquia reforçou a segurança nas escolas em todo o país após tiroteios fatais nas províncias do sudeste de Kahramanmaraş e Şanlıurfa na semana passada, informou a agência de notícias estatal Anadolu....
  • Sanções dos EUA visam empresa sediada na Turquia por remessas ligadas ao programa de mísseis do Irã Os Estados Unidos impuseram sanções na terça-feira a uma rede que inclui uma empresa com sede na Turquia, acusada de fornecer materiais usados no programa de mísseis balísticos do Irã, como parte de medidas mais amplas que visam 14 indivíduos, entidades e aeronaves ligados aos esforços de aquisição de armamentos de Teerã....
  • Onda de comoção na Turquia durante o sepultamento de vítimas de tiroteio em escola Multidões se reuniram para os funerais de oito crianças e um professor no sul da Turquia nesta quinta-feira, mortos quando um jovem de 14 anos abriu fogo em uma escola — um crime que mergulhou o país em choque e a comunidade em luto, informou a Agence France-Presse....
  • Turquia diz que moveu 3 navios pelo Estreito de Ormuz e busca saída para mais 8 A Turquia garantiu a saída de três navios de propriedade turca do Estreito de Ormuz e está trabalhando com o Ministério das Relações Exteriores para retirar mais oito da hidrovia, disse o Ministro dos Transportes e Infraestrutura, Abdulkadir Uraloğlu, na quarta-feira....
  • Pelo menos 17 detidos e 3 presos por ameaças online de ataques a escolas na Turquia após tiroteio mortal As autoridades turcas detiveram pelo menos 17 pessoas em várias províncias e prenderam diversos suspeitos por ameaças online de ataques a escolas e por postagens que enalteciam a violência, após o primeiro tiroteio fatal em uma escola na Turquia, que deixou 10 mortos na província de Kahramanmaraş, no sul do país....
  • Turquia busca extradição de 49 pessoas da Suécia por ligações com o movimento Hizmet A Turquia está buscando a extradição de 49 pessoas da Suécia por ligações com o movimento Hizmet, de base religiosa, segundo números recém-divulgados, enquanto Ancara intensifica a pressão sobre aliados, apesar de poucos retornos bem-sucedidos ao longo da última década, informou o site de jornalismo de longa duração Blankspot, sediado na Suécia....
  • Turquia prende 42 pessoas por distribuir ajuda no Ramadã a famílias do Movimento Hizmet   A polícia turca deteve na quinta-feira 42 pessoas, a maioria mulheres, acusadas de prestar assistência financeira durante o Ramadã a famílias de indivíduos presos ou demitidos de seus empregos por suposta ligação com o Movimento Hizmet, conforme relatou o Centro de Liberdade de Estocolmo....
  • Ex-presidente do Supremo e ex-ministro do AKP criticam Judiciário e sistema presidencial como “desastre” O ex-presidente do Tribunal Constitucional Haşim Kılıç e o ex-ministro do AKP Hüseyin Çelik criticam o sistema presidencial turco como um "desastre" e alertam para a erosão dos direitos fundamentais e a crise no Judiciário do país....
  • Relatores especiais da ONU exortam Turquia a parar de criminalizar defensores de direitos humanos sob acusações de terrorismo Cinco relatores especiais da ONU alertam que a Turquia usa leis antiterrorismo para criminalizar defensores de direitos humanos e advogados, pedindo a Ancara que respeite os padrões internacionais de direitos humanos e encerre a perseguição à Associação de Direitos Humanos (İHD)....
  • Turquia Exige 217 Extradições da Holanda por Ligações ao Movimento Hizmet A Turquia solicitou à Holanda a extradição de 217 pessoas acusadas de ligações ao Movimento Hizmet. O pedido foi feito durante negociações em Ancara entre os ministros da Justiça dos dois países, renovando uma das principais tensões diplomáticas entre Turquia e Europa....
  • Turismo turco afetado pela guerra no Irã com aumento de cancelamentos e custos O turismo turco começa a sentir o impacto da guerra no Irã, com cancelamentos em massa nas regiões orientais e aumento previsto nos custos de aviação na véspera da temporada de verão. O fluxo de turistas iranianos — cerca de 3,3 milhões por ano — praticamente cessou, afetando especialmente o leste e o sudeste da Turquia....
  • Turquia anuncia suspensão de travessias diárias na fronteira com o Irã Turquia e Irã suspendem mutuamente travessias de um dia na fronteira compartilhada de 500 km, em meio a ataques israelenses e americanos à República Islâmica. Ministro do Comércio turco Ömer Bolat garante que não há situação extraordinária na região....
  • Turquia se junta ao Egito e Paquistão na mediação da crise entre EUA e Irã enquanto Trump adia ataques, diz reportagem A Turquia, o Egito e o Paquistão atuam como mediadores na crise entre EUA e Irã, transmitindo mensagens entre Washington e Teerã em meio à escalada de tensões no Estreito de Ormuz. Trump adia ataques militares e anuncia pausa de cinco dias, enquanto chanceleres negociam para evitar um conflito regional....
  • Perguntas sem resposta persistem após série de acidentes da aviação militar com pessoal turco Uma série de acidentes fatais de aviação militar envolvendo forças turcas em cinco meses levanta questões sobre segurança, transparência e a falta de investigações públicas. Os incidentes ocorreram na Geórgia, Ankara, Balıkesir e no Catar, com dezenas de mortes e nenhuma explicação oficial conclusiva divulgada pelas autoridades da Turquia....

Tudo o que você queria saber da Turquia e tinha medo de perguntar

Tudo o que você queria saber da Turquia e tinha medo de perguntar
julho 19
01:13 2016

Sei que a Turquia é complicada. Vou tentar fazer o possível neste post para explicar de uma forma um pouco mais simples. E peço desculpas pela demora. Mas fiquei até tarde na Globo News e, além disso, não tínhamos todas as informações. E escrevo de memória seguindo a minha teoria de que, se eu não lembro de alguma coisa que vou escrever, certamente quem ler tampouco vai lembrar.

O fim do Império Otomano

Primeiro, temos de saber um pouco da história da Turquia. Até a Primeira Guerra Mundial, existia o Império Otomano. Era um império multiétnico e multi-religioso. O comandante era o sultão, que, além de líder político, era líder religioso dos muçulmanos. Tinham muitos judeus e cristãos, especialmente em grandes cidades como Istambul, Izmir (Smyrna), Aleppo, Cairo, Beirute, Damasco, Salonica e Alexandria. A população era árabe, curda, armênia, turca, búlgara, grega e eslava.

O Império Otomano entrou em colapso depois da derrota na guerra. Seus territórios no mundo árabe foram divididos entre britânicos e franceses – hoje são Israel, Palestina, Síria, Egito (que já tinha uma certa autonomia), Líbano e Iraque. Os da Europa se tornaram independentes, em um processo que havia começado um pouco antes.

O Nascimento da Turquia

Restou o território da Anatólia e um pouco da Europa, que é a Turquia de hoje. Neste espaço, jovens militares comandados por Mustafa Kemal Ataturk decidiram criar uma nova nação. Um país republicano, laico e turco. Isto é, passaram a valorizar a etnia turca, ocidentalizaram o país, incluindo a escrita, acabaram com sultão e instituíram uma República. Eles eram muçulmanos, mas laicos. Acharam importante separar a religião do Estado, nos moldes franceses. Este processo se chamou “Revolução Kemalista”. Simbolicamente, retiraram a capital de Istambul e transferiram para Ancara, no centro da Anatólia.

Século 20 e a Turquia Ocidental

Ao longo do restante do século 20, os kemalistas dominaram a política turca. Seu partido é o CHP. Mas a grande base do movimento laico é o Exército, além das elites de Istambul, Ancara e Izmir (Smyrna). Quando houve problema, o Exército interveio e assumiu o poder, repassando para civis posteriormente.

Judeus Sefaradis, Armênios e Cristãos Ortodoxos

Talvez você se pergunte o que houve com as minorias religiosas. Os judeus seguiram vivendo em Istambul. Inclusive, são chamados de judeus sefaradis e falam ladino, que é uma língua próxima de um espanhol arcaico. Os armênios foram alvo de genocídio durante a primeira guerra. Os cristãos grego-ortodoxos do que hoje é a Turquia migraram em massa para a Grécia, embora ainda haja em Istambul uma expressiva minoria cristã e também o Patriarcado Ecumênico da Igreja Ortodoxa, às margens do Bósforo.

Importante frisar que os armênios foram perseguidos não propriamente por questões religiosas, mas étnicas. Era turco contra armênio, não muçulmano contra cristão.

Turquia equivale a México ou Argentina

A Turquia, para esclarecer, não é um país atrasado. Está em um patamar de desenvolvimento similar ao Brasil, México ou Argentina. Tem menos desigualdade social do Brasil e incomparavelmente menos violência urbana. Também tem menos pobreza.

Turquia e a OTAN

Não podemos esquecer também que a Turquia, ao longo da Guerra Fria, era um dos maiores aliados americanos e até hoje é integrante fundamental da OTAN, como é conhecida a aliança militar ocidental.

Erdogan e AKP e no poder

Mas vamos chegar logo a Recep Tayyp Erdogan. Ele fundou um partido chamado AKP. E o AKP tem um viés religioso. Não se trata de um extremismo religioso, como a Arábia Saudita. Erdogan não é wahabbita. É apenas uma pessoa religiosa em um país laico. Os kemalistas são muçulmanos que comem tranquilamente bacon e tomam cerveja durante o Ramadã. Erdogan e os membros do AKP jejuam.

E o AKP conseguiu vencer as eleições graças ao apoio de uma base mais religiosa no interior da Turquia somado ao, na época, elogiado desempenho de Erdogan como prefeito de Istambul. Houve, na época, uma certa cautela dos kemalistas. Odeio comparações porque podem ser mal interpretadas, mas foi similar ao momento que Lula e o PT chegaram ao poder no Brasil – aliás, foi o mesmo momento – 2002.

Política Externa de Erdogan

Erdogan assumiu como premiê (a Turquia é parlamentarista) e seu aliado Abdullah Gul como presidente. Ele superou o ceticismo ao fazer reformas importantes na economia, que geraram crescimento. Aliás, diferentemente do PT e de Lula, Erdogan nunca foi de esquerda em economia. Ele tem posições conservadoras não apenas em economia como em temas sociais. Em política externa, seu então chanceler Davutoglu buscou estabelecer boas relações com todos os seus vizinhos. Erdogan era amigo de Assad. Lembro de ir a Damasco e ver outdoor com a imagem do líder turco. Juro. Também era amigo de Israel, de Bush nos EUA, de todos. Inclusive, deixou a Turquia mais próxima da União Europeia com a estabilização da economia.

No fim de 2008, Erdogan mediava a paz entre Israel e a Síria. Só faltava assinar. Ele, Assad e Ehud Olmert, então premiê de Israel, poderiam receber o Nobel da Paz. O mundo, ou pelo menos o Oriente Médio, seria mais pacífico hoje. Em tempo, quem me disse que eles assinariam a paz foi o próprio Assad quando o entrevistei em Damasco.

Mas, na época, Israel entrou em guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza. E os israelenses, obviamente, coordenaram com o Egito de Hosni Mubarak, que tem fronteira com Gaza. Mas não com Erdogan, que não tinha nada a ver com a história. Ainda assim, Erdogan ficou irritado. Em Genebra, brigou com o presidente de Israel, Shimon Peres.

Os curdos

Aos poucos, a partir de 2009, a Turquia, portanto, começou a mudar sua política externa. Internamente, porém, Erdogan buscava uma aproximação com os curdos. E aqui cabe uma explicação. Os curdos são uma etnia que também segue o islamismo sunita, como os turcos. Mas a religião não interessa. Interessa a etnia.

Os curdos nunca tiveram um país e se tornaram minoria na Turquia, Irã, Iraque e Síria. No caso turco, os kemalistas tinham esta política de o país ser uma república étnica turca. Os curdos não se encaixavam e não tinham direitos, incluindo o de estudar as línguas. Surgiram então movimentos separatistas curdos, como o PKK, que começaram a realizar atentados terroristas a partir do fim dos anos 1970 e começo dos 1980. Foram dezenas de milhares de mortos contra as forças turcas.

Primavera Árabe

Mas voltemos à política externa. A Turquia, que não é árabe, apostou na Primavera Árabe a partir de 2011. E apostou também que as nações árabes se tornariam democracias como a Turquia. Não apenas democracias. Democracias com participação do Islã político. No início, deu certo. A Irmandade Muçulmana assumiu o poder no Egito em eleições democráticas.

Na Síria, Erdogan fez a sua maior aposta. Abandonou seu ex-amigo Assad e passou a apoiar rebeldes da oposição. Mais do que isso. Começou a permitir que jihadistas de todo o mundo entrassem na Síria para lutar contra Assad. O regime de Assad, não podemos esquecer, é laico, mas conta com o apoio das minorias muçulmanas alauíta, cristã e drusa, além de sunitas não religiosos similares aos kemalistas. Erdogan queria uma democracia controlada por sunitas.

Para complicar, Assad concedeu uma certa autonomia aos curdos na fronteira com a Turquia. Estes curdos, que lutavam contra os jihadistas, mas não contra Assad, eram aliados dos curdos na Turquia, do PKK.

 Política Doméstica de Erdogan

Internamente na Turquia, Erdogan passou a ter planos de se tornar presidente. Não apenas presidente. Mas presidente em um regime presidencialista, retirando poderes do premiê. Em 2014, ele atingiu seu objetivo se eleger presidente. Era fácil. Mas não obteve a super maioria para seu partido, o AKP, conseguir mudar a Constituição. Na prática, no entanto, Erdogan se tornou o grande líder da Turquia. O premiê passou a ser seu aliado de sempre, Davutoglu.

A oposição se divide entre os kemalistas, os nacionalistas e os curdos não ligados ao PKK. Dividida, não consegue evitar a consolidação no poder de Erdogan. O líder turco, porém, sempre paranoia com um outro grupo – os gulenistas.

Os gulenistas integram um movimento mais religioso que segue um líder atualmente exilado nos EUA. Eles são extremamente educados (no sentido de educação formal, acadêmica). Há membros em todos os setores da sociedade turca – militares, juízes, médicos, jornalistas, acadêmicos. Não há paralelo no mundo.

Erdogan sabe da influência dos gulenistas, que foram seus aliados no passado. E tem uma paranoia atualmente em relação a eles. Tanto que os acusa, em parte, pela tentativa de golpe.

 Paranoia de Erdogan

Nos últimos tempos, a paranoia de Erdogan se agravou. Manda prender jornalistas que o criticam. Afasta juízes e generais. Censura a imprensa. O tempo todo acha que alguém trama contra ele.  Externamente, Erdogan vinha agindo da mesma forma, ao entrar em atrito com a Rússia na Síria e seguir brigando com Israel e Assad – curiosamente, apesar de estar em lado antagônico na Guerra da Síria, Erdogan sempre manteve uma boa relação com o Irã, que, além de tudo, é xiita. Isso se deve ao comércio bilateral. Erdogan também se dá bem com os curdos do Iraque por causa do comércio.

ISIS (Estado Islâmico ou Daesh)

Dentro deste cenário, no ano passado, a Turquia começou a alterar sua política em relação aos jihadistas. O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, começou a realizar atentados terroristas. O país passou a integrar a coalizão liderada pelos EUA para combater a organização. Ao mesmo tempo, Erdogan também passou a bombardear os curdos da Síria que lutavam contra o ISIS.

O resultado foi o início de atentados terroristas na Turquia tanto do PKK como do ISIS, sendo o mais recente no aeroporto. Sua popularidade não foi tão atingida, com o AKP vencendo eleições. A base dele é forte e foi beneficiada pelo bom desempenho econômico, surgindo uma nova classe média.

Mudança de postura

Apesar disso, crescia a insatisfação em determinados setores das Forças Armadas e também da elite em Istambul. No exterior, a insatisfação de Erdogan era crescente. O líder turco soube ler especialmente o cenário externo (e em parte porque viu que até seu aliado Davutoglu o criticava e deixou o governo). Fez um acordo com a União Europeia para reduzir o número de refugiados e imigrantes cruzando da Turquia para a Grécia de barco. Também voltou a se aproximar da Rússia e de Israel. Alguns diziam até que Erdogan passaria a tolerar Assad para haver uma união maior contra o ISIS.

O Golpe

Mas certamente isso não foi suficiente para uma parcela das Forças Armadas. Na noite desta sexta-feira, levaram adiante um golpe militar. Incialmente, obtiveram sucesso. Erdogan, de férias no Mar de Marmara, convocou a população para ir as ruas contra os golpistas. O cenário, naquele momento, começou a se reverter.

Erdogan também teve o apoio externo imediato, com os EUA denunciando o golpe. Dentro da Turquia, os três principais partidos de oposição também disseram ser contra o golpe. Na Globo News, até comparei estes partidos ao PSDB e o DEM condenando o impeachment contra Dilma, mas esta comparação é descabida e peço perdão. Não deveria ter misturado as duas coisas ao vivo e sem contexto (se bem que pouca gente ligou). Mas, enfim, a condenação dos kemalistas, nacionalistas e curdos pesou muito. E, para completar, os gulenistas também condenaram

Neste momento, em uma situação fluída, parece que Erdogan saiu vencedor. Ou, pelo menos, não foi derrotado. Os golpistas parecem ter fracassado. Erdogan acusa os gulenistas, que negam. Outros falam em auto-golpe. Nada é impossível na Turquia de Erdogan, assim como na Rússia de Putin. Acho possível que organizasse um auto-golpe para se fortalecer. Mas creio que seria diferente do que vimos e não haveria centenas de mortos. Talvez, se tiver fugido do controle. Ainda assim, acho improvável.

O certo, apenas, é que uma parcela considerável do médio e baixo escalão das Forças Armadas da Turquia tentou derrubar Erdogan. E aparentemente fracassou. A Turquia, no entanto, independentemente do resultado final, será outra. Creio que pior. Sempre lembro da Venezuela depois do golpe que tentaram dar contra Chávez. O chavismo se radicalizou e ficou bem mais paranoico a partir daquele momento. O mesmo pode ocorrer com Erdogan. Mas estes temas ficam para outros posts e para os meus comentários na Globo News.

Gustavo Chacra

Fonte : http://internacional.estadao.com.br/blogs/gustavo-chacra/tudo-o-que-voce-queria-saber-da-turquia-e-tinha-medo-de-perguntar/

Related Articles

Mailer