Metade dos turcos desconfia do Judiciário, com a confiança caindo para 36%, diz pesquisa
A confiança pública no Judiciário da Turquia caiu para 36%, com metade dos entrevistados afirmando não confiar nos tribunais, segundo uma pesquisa de março de 2026 que aponta para uma crise de confiança em instituições-chave do Estado, informou o Turkish Minute.
A pesquisa, realizada pela empresa Gündemar, sediada em Istambul, entre 23 e 26 de março, com 2.200 pessoas em 60 províncias, constatou que 50% dos entrevistados disseram não confiar no Judiciário, o nível mais alto de desconfiança registrado para qualquer instituição no levantamento. Apenas 36% expressaram confiança, enquanto 11% disseram estar indecisos e 3% não tinham opinião.
O Judiciário foi a única instituição em que a desconfiança superou 50%, indicando que o ceticismo em relação aos tribunais atingiu um nível que vai além da polarização política e reflete uma erosão mais ampla da confiança pública.
Os resultados também mostraram baixos níveis de confiança em instituições ligadas à fiscalização democrática. A confiança na mídia foi a mais baixa no geral, com 24%, enquanto 53% expressaram desconfiança. O Parlamento ficou quase empatado, com 41% expressando confiança e 42% desconfiança, enquanto a confiança na Presidência foi de 42% contra 44% de desconfiança.
A opinião sobre os municípios também refletiu uma percepção pública dividida, com 38% expressando confiança e a mesma proporção expressando desconfiança. A confiança na oposição política permaneceu baixa, em 31%, enquanto 43% disseram não confiar nos partidos de oposição, apontando para uma crise mais ampla de representação em todo o espectro político.
As universidades ficaram em uma posição intermediária em termos de confiança pública, com 49% dos entrevistados expressando confiança e 27% desconfiança, enquanto 20% disseram estar indecisos. Os números sugerem que, embora as instituições de ensino superior mantenham maior apoio público do que os órgãos políticos, persistem preocupações sobre a independência acadêmica.
Em contraste, instituições associadas à segurança mantiveram níveis muito mais altos de confiança pública. A confiança na polícia foi medida em 69%, enquanto as Forças Armadas Turcas (TSK) ocuparam o primeiro lugar entre todas as instituições, com 73%.
A pesquisa também perguntou aos entrevistados qual era o problema mais urgente da Turquia. Questões econômicas, incluindo inflação e desemprego, ficaram em primeiro lugar, com 50,33%, seguidas por preocupações com lei, justiça e independência judicial, com 18,26%, reforçando a ligação entre a queda da confiança institucional e problemas mais amplos de governança.
A Turquia enfrenta pressão inflacionária há anos. Dados oficiais mostram que a inflação anual ao consumidor permanece em dois dígitos desde 2019 e ultrapassou 75% em maio de 2024, antes de começar a cair. A inflação continua sendo um dos principais desafios econômicos para o governo do presidente Recep Tayyip Erdoğan após anos de alto custo de vida.
Os resultados da pesquisa surgem em meio a críticas de figuras políticas e especialistas jurídicos sobre o estado do Judiciário turco e sua independência.
O ex-presidente do Tribunal Constitucional Haşim Kılıç e o ex-ministro da Educação Hüseyin Çelik descreveram recentemente o sistema judiciário do país e o modelo de presidência executiva como um “desastre”, alertando para a erosão de direitos fundamentais e salvaguardas democráticas. Kılıç criticou o que chamou de uma “postura tímida e apreensiva” do Tribunal Constitucional ao lidar com violações de direitos e disse que a falta de cumprimento das decisões da mais alta corte estava minando a confiança pública.
A Turquia mudou de um sistema parlamentar de governo para um sistema presidencial executivo após um referendo em 2017, concedendo amplos poderes a Erdoğan e removendo muitos mecanismos de freios e contrapesos, segundo críticos. Alguns analistas afirmam que o sistema concentrou poder excessivo em um único cargo, enfraqueceu a supervisão institucional e contribuiu para a queda da confiança nas instituições políticas.



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