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Turquia Patrocinadora do Terrorismo: Decisão Judicial dos EUA Confirma Apoio Estatal à al-Nusra

Turquia Patrocinadora do Terrorismo: Decisão Judicial dos EUA Confirma Apoio Estatal à al-Nusra
janeiro 07
05:46 2026

5 de janeiro de 2026

Abdullah Bozkurt / Estocolmo

 

Em uma decisão judicial histórica, um tribunal federal dos EUA confirmou publicamente que a Turquia, sob o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan, patrocinava o grupo terrorista Jabhat al-Nusra, filiado à al-Qaeda, que operava na Síria. O caso registra formalmente em documentos judiciais americanos o envolvimento encoberto da inteligência turca (MIT) em operações jihadistas, criando um precedente legal significativo sobre patrocínio estatal de terrorismo.

Em um caso federal de terrorismo nos Estados Unidos, a Turquia foi citada publicamente como patrocinadora de um grupo militante ligado à al-Qaeda na Síria, cujas operações eram dirigidas pelo governo do presidente islamista Recep Tayyip Erdogan, segundo depoimentos prestados no julgamento e conclusões probatórias mantidas em grau de recurso.

O Caso United States v. Wadi: Patrocínio Turco em Julgamento

 

A constatação veio à tona no processo criminal United States v. Wadi, cuja acusação e julgamento foram analisados pela Corte de Apelações do 5º Circuito, que confirmou condenações por financiamento ao terrorismo e conspiração para assassinar no exterior.

No centro da decisão esteve a rejeição, pelo tribunal, de uma alegação abrangente da defesa que vinculava diretamente as ações da Jabhat al-Nusra à Turquia como ator estatal em um conflito armado internacional.

A Jabhat al-Nusra, que surgiu como um “nome de fachada” da al-Qaeda no Iraque, foi designada como grupo terrorista pelos EUA e por diversos países ao redor do mundo. Desde 2013, constava do regime de sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o ISIL (Daesh) e a al-Qaeda. Com o tempo, a designação foi atualizada para refletir as múltiplas mudanças de nome do grupo, incluindo Jabhat Fateh al-Sham e, mais tarde, Hay’at Tahrir al-Sham (HTS).

Segundo a denúncia, Imad Eddin Wadi e seu associado Ahmad Daniel Barodi concordaram que uma parte dos fundos de investimento e dos lucros futuros seria usada para “ocultar, lavar e canalizar recursos” ao exterior, sabendo que o dinheiro seria empregado na compra de armas para militantes jihadistas, incluindo rifles, granadas e foguetes.

A Conspiração e o Papel da Turquia

 

Wadi, sírio naturalizado cidadão americano, planejava montar um abatedouro de carne bovina halal na Colômbia com o sócio Barodi. Eles precisavam de cerca de US$ 13 milhões em investimentos para tirar a ideia do papel. Desconfiado do plano, um amigo de Wadi, Hussain Baker — fonte confidencial do FBI — denunciou em 2017 o projeto às suas conexões na agência. Por orientação do FBI, Baker colocou Wadi e Barodi em contato com um “representante” de um “sheik kuwaitiano” fictício criado pela própria agência, que se ofereceu para investir no abatedouro.

O tribunal de apelações dos EUA manteve condenações por terrorismo em um caso no qual a Turquia foi citada como patrocinadora do grupo terrorista designado Jabhat al-Nusra, antecessor do Hay’at Tahrir al-Sham. O réu buscou imunidade de combatente contra a persecução penal, sustentando que a Turquia, como ator estatal, patrocinava os grupos jihadistas que ele era acusado de financiar.

O “sheik” se dispôs a investir US$ 9 milhões no empreendimento colombiano de Wadi e Barodi — com uma condição: que eles concordassem em enviar pelo menos 5% desse investimento à al-Nusra para apoiar a campanha violenta da entidade jihadista para derrubar o governo sírio. Wadi e Barodi aceitaram a condição sem “hesitação ou reserva”; mais ainda, admitiram que já haviam fornecido esse tipo de financiamento no passado.

Em diversos momentos das conversas com o representante do “sheik”, Wadi e Barodi sugeriram enviar ainda mais do que esse percentual inicial, incluindo até 100% dos lucros esperados do abatedouro.

De acordo com as provas apresentadas ao tribunal durante o julgamento, Wadi e Barodi disseram querer retaliar os governos sírio e russo repassando US$ 450 mil a seus “irmãos” terroristas sírios para comprar armas e matar aquelas tropas — sabendo que esses “irmãos” também combatiam soldados americanos.

Eles acertaram que uma porcentagem do investimento inicial de US$ 9 milhões e, no mínimo, 50% dos lucros iriam para os terroristas comprarem armas. Depois, elevaram esse percentual para 70% dos lucros e até para 100%.

Do total desses recursos, Wadi e Barodi afirmaram que 90% seriam destinados a armas e 10% a terroristas feridos e às mulheres e crianças dos terroristas, para dar uma aparência de legitimidade e ocultar o dinheiro destinado às armas.

Barodi disse então que usaria Abu Faruq, na Turquia, e Adham, na Ucrânia, para obter explosivos. Na mesma conversa, após Barodi desligar, Wadi explicou à fonte humana confidencial (CHS, na sigla em inglês) como Adham, Abu Faruq e outros mujahidin contrabandeavam armas compradas na Turquia e na Ucrânia para parentes de Barodi, que seriam líderes dos terroristas na Síria.

Detalhes da Operação e o Envolvimento de Erdogan

 

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan discursa a correligionários no Parlamento da Turquia em 19 de fevereiro de 2025.

Wadi discutiu em detalhe armas específicas e rotas de contrabando, além de quais armas seriam compradas com o dinheiro do “xeque”, reforçando a credibilidade de suas afirmações de que já negociara armas antes e de que ele e Barodi apoiavam esse tipo de terrorista que combatia o governo sírio desde 1998, enviando dinheiro e realizando compras de armamentos — provavelmente matando algumas das pessoas que pretendiam atingir, incluindo soldados sírios e mulheres e crianças alauítas.

Desde o início, em maio de 2017, Wadi foi gravado afirmando que tinha meios de contrabandear qualquer coisa pela fronteira turca e que fazia isso havia muito tempo, dizendo que ele e Barodi já vinham “nos colocando em perigo antes de vocês”. Wadi acrescentou que seu amigo turco Abu Husayn poderia movimentar as armas e que ele “negociou armamentos em enormes quantidades”.

As identidades de Abu Faruq e Abu Husayn — ambos cidadãos turcos usando nomes supostos — não foram reveladas nos documentos do processo. Reportagens anteriores do Nordic Monitor, porém, mostraram que vários oficiais do serviço de inteligência turco, a Milli İstihbarat Teşkilatı (MIT), implicada no transporte, armamento e patrocínio de grupos jihadistas, incluindo a al-Nusra e sua sucessora Hay’at Tahrir al-Sham, usaram nomes de guerra em árabe para ocultar suas identidades.

Um deles seria Kemal Eskintan, alto funcionário do MIT que, à época, chefiava a Diretoria de Operações Especiais (Özel Operasyonlar Başkanlığı). A unidade era responsável por missões de inteligência altamente sigilosas dentro e fora da Turquia, operando sob autorização direta do presidente Erdogan.

Eskintan, ex-militar conhecido entre facções jihadistas pelo codinome Abu Furqan, teria desempenhado papel central ao viabilizar o apoio encoberto do Estado turco a grupos extremistas não apenas na Síria e na Líbia, mas também em outras zonas de conflito no Oriente Médio e na África.

Kemal Eskintan, agente da inteligência turca que coordenou grupos jihadistas na Síria e na Líbia.

A peça acusatória afirma que Wadi se comunicou repetidamente com uma fonte humana confidencial e com um agente infiltrado das forças de segurança sobre o plano, incluindo a forma como o dinheiro seria transferido e ocultado. Os promotores alegam que Wadi chegou a discutir o uso dos lucros para comprar aeronaves controladas remotamente capazes de transportar até 50 quilos de explosivos.

A denúncia descreve uma série de supostos atos explícitos, incluindo conversas gravadas e mensagens de áudio em que Wadi e seu co-conspirador discutiam atividade no campo de batalha, necessidades de armamento e relatos de combatentes na linha de frente na Síria. Em uma troca citada pelos promotores, Wadi disse receber relatórios diários sobre “quantas pessoas eles mataram” e afirmou sentir “o êxtase da jihad” ao falar com combatentes.

Promotores também alegam que mensagens de áudio e vídeo compartilhadas durante a conspiração incluíam referências a ataques de foguetes, helicópteros derrubados e mortes de inimigos, com descrições como “massacrá-los como cães”. Essas armas, segundo a acusação, seriam usadas para matar e ferir pessoas na Síria.

As provas apresentadas tanto pelo governo quanto pela defesa frequentemente apontavam a Turquia como a principal porta de entrada para terroristas estrangeiros que lutavam na Síria.

Os promotores afirmaram que, em meados de 2018, Wadi falou sobre usar um associado de confiança na Turquia para transportar dinheiro, mercadorias e possivelmente armas para apoiar combatentes na Síria. Registros do processo dizem que, em outubro de 2018, Wadi e um associado delinearam planos para enviar recursos ao Oriente Médio em benefício de militantes, recorrendo a um intermediário baseado na Turquia para facilitar transferências a parentes que lutavam na Síria. A denúncia acrescenta que Wadi mais tarde discutiu um investimento proposto de US$ 9 milhões no abatedouro que envolveria o envio de carne bovina para a Turquia e o desvio de receitas para militantes em Idlib, na Síria.

Hakan Fidan, ministro das Relações Exteriores da Turquia e ex-chefe do MIT. Ele dirigiu o apoio clandestino a grupos jihadistas armados na Síria quando comandava o MIT.

Em junho de 2021, o FBI encerrou a operação infiltrada, e Wadi foi preso e denunciado por conspiração para assassinar e mutilar pessoas em país estrangeiro e por conspiração para enviar apoio material a terroristas e a organizações terroristas estrangeiras designadas. Wadi foi a julgamento em maio de 2023, e um júri federal no Texas o condenou por todas as acusações ainda naquele mês, considerando-o culpado de conspiração para assassinar e mutilar pessoas no exterior e de conspiração para fornecer apoio material a uma organização terrorista estrangeira designada. A Justiça fixou pena de 160 meses de prisão em regime de cumprimento simultâneo para cada acusação.

Durante o julgamento, o perito de defesa Dr. Samer Abboud afirmou que o grupo jihadista Ahrar al-Sham (AAS) — que ele descreveu como afiliado ao Hay’at Tahrir al-Sham, sucessor da al-Nusra — estava sob proteção da Turquia em julho de 2017. Abboud disse ainda que, em outubro de 2019, o AAS havia se tornado parte do Exército Nacional Sírio, operando sob controle turco e participando de operações militares contra as Forças Democráticas Sírias, lideradas por curdos. Ele também afirmou que, em 2020, dentro do período abrangido pela denúncia, o AAS teria mirado soldados e fuzileiros navais americanos por orientação da Turquia. Abboud reconheceu, porém, que o HTS e o AAS lutaram lado a lado em certos momentos entre março de 2013 e junho de 2019.

No recurso, Wadi apresentou um argumento extraordinário: sustentou ter direito a uma instrução ao júri sobre imunidade de combatente porque a al-Nusra estaria lutando na guerra civil síria “sob direção e controle da Turquia”, o que ele classificou como um conflito armado internacional.

Segundo o acórdão de apelação emitido em fevereiro de 2024, Wadi afirmou que esse suposto controle turco transformaria a al-Nusra em força beligerante lícita, com direito às proteções das Convenções de Genebra — proteções que, se aplicáveis, impediriam condenações por homicídio por mortes ocorridas como parte de uma guerra legítima.

“O argumento de Wadi se apoia na premissa de que os terroristas que ele conspirou para apoiar estavam envolvidos em mortes lícitas como parte de uma guerra legítima sob o direito internacional. Mas havia prova não refutada no julgamento de que a al-Nusra cometia atos que violavam as leis da guerra”, disse a corte de apelação.

O acórdão enfatizou que mesmo combatentes lícitos perdem qualquer pretensão de imunidade quando violam as leis da guerra. Citando tratados de referência em direito penal, o tribunal escreveu:

“[N]ão há imunidade de combatente para ações que violem as leis da guerra, (…) mesmo quando praticadas por beligerantes privilegiados. Portanto, a morte de civis indefesos, desarmados e que não oferecem resistência constituiria homicídio.”

A Decisão e Seus Impactos Jurídicos

 

O tribunal então destacou a prova mais devastadora apresentada no julgamento — prova que descreveu como não refutada.

“De modo mais claro, o governo apresentou evidências de que a al-Nusra estava massacrando mulheres e crianças ‘como cães’ e de que Wadi tinha conhecimento desses assassinatos enquanto conspirava para apoiar as atividades da al-Nusra.”

Os juízes contrapuseram isso à falha completa da defesa em justificar as mortes à luz do direito internacional:

“Em contraste, Wadi não apresentou qualquer prova de que essas mortes fossem atos justificáveis de guerra lícita.”

Com base nisso, a corte concluiu que “o tribunal distrital não abusou de sua discricionariedade ao recusar a instrução ao júri solicitada por Wadi”.

Esse trecho da decisão é relevante do ponto de vista jurídico e político porque mostra que uma corte federal de apelação dos EUA enfrentou formalmente — e registrou — um argumento da defesa segundo o qual a al-Nusra operava sob direção e controle turcos em um conflito armado internacional.

Embora o tribunal tenha rejeitado as consequências jurídicas que Wadi buscava extrair dessa premissa, fez isso ao se concentrar nas atrocidades da al-Nusra, e não ao repudiar a existência de patrocínio turco em si. Ao fazê-lo, o 5º Circuito inseriu alegações sobre o papel da Turquia nas operações da al-Nusra diretamente no registro judicial.

A corte, por fim, confirmou todas as condenações de Wadi, mantendo intacta sua pena federal de 160 meses de prisão. A decisão deixa claro que nem alegações de guerra geopolítica nem afirmações de direção estatal podem proteger quem financia, de forma consciente, organizações responsáveis por assassinatos em massa de civis.

Conclusão: Um Precedente Histórico para Responsabilidade Estatal

 

O caso cria um registro legal formal, dentro do sistema de Justiça dos EUA, documentando alegações de apoio estatal da Turquia a um grupo terrorista jihadista sancionado tanto pelas Nações Unidas quanto por numerosos países ao redor do mundo. Se a Turquia e o governo islamista do presidente Erdogan serão, ao fim, responsabilizados legalmente por essa conduta, ainda é uma questão em aberto.

Fonte: Turkey’s state sponsorship of terrorism registered in US judicial documents – Nordic Monitor

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