Investigação: Captura de Maduro expõe rede de tráfico de ouro e drogas entre Venezuela, Turquia e Erdogan
6 de janeiro de 2026
Levent Kenez, de Estocolmo
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos e sua transferência para Nova York reacenderam o escrutínio sobre como funcionaram, durante anos de sanções internacionais e colapso econômico, as redes de ouro, dinheiro e proteção política na Venezuela — e sobre como a Turquia emergiu como parceira-chave desse sistema.
Há anos, autoridades e analistas sustentam que as fortes altas e quedas abruptas nas exportações venezuelanas de ouro, por si só, contam uma história. Com Maduro agora prestes a ser julgado nos Estados Unidos por acusações que incluem narcoterrorismo, autoridades americanas alegam que ele permitiu que a corrupção alimentada pelo tráfico de cocaína florescesse dentro do governo e no seu círculo pessoal.
Investigadores voltaram a rastrear como o dinheiro saiu da Venezuela e por quais relações políticas, países e redes empresariais esses fluxos passaram.
Desde que chegou ao poder, em 2013, Maduro presidiu um período de hiperinflação, colapso econômico e isolamento crescente dos sistemas financeiros ocidentais. Com a queda das receitas do petróleo e o fechamento de canais tradicionais de exportação, o ouro tornou-se central para a sobrevivência do regime. Funcionou não apenas como mercadoria de exportação, mas também como reserva de valor e instrumento para contornar sanções.
O período de maior isolamento internacional da Venezuela coincidiu com seu momento de cooperação política mais forte com Ancara. Os laços diplomáticos aceleraram após julho de 2016, quando Maduro se tornou um dos primeiros líderes estrangeiros a apoiar publicamente o presidente turco Recep Tayyip Erdogan após uma tentativa de golpe.
Erdogan passou, então, a descrever repetidamente Maduro como “um querido amigo” e agradeceu à Venezuela pela solidariedade. Apenas três meses depois da tentativa de golpe, Maduro visitou Istambul, tornando-se o primeiro presidente venezuelano a fazê-lo. Pouco depois, a Turkish Airlines inaugurou voos diretos entre Istambul e Caracas, criando um corredor físico que espelhava a aliança política crescente. Os dois líderes rejeitaram abertamente as sanções dos EUA e da União Europeia e enquadraram a parceria como resistência a pressões unilaterais.
Os números do comércio logo refletiram esse alinhamento. Em 2016, o comércio bilateral entre Turquia e Venezuela era de cerca de US$ 80 milhões. Em 2017, superou US$ 150 milhões. A guinada decisiva ocorreu em 2018, depois que Washington impôs sanções ao setor de ouro venezuelano.
A Turquia passou a importar ouro venezuelano, supostamente refinando-o no próprio país. Dados oficiais turcos indicam que as importações chegaram a aproximadamente US$ 900 milhões em 2018, elevando o comércio bilateral total para mais de US$ 1 bilhão em um único ano. Após alertas explícitos dos EUA, com foco no processamento de ouro e na evasão de sanções, o comércio desabou com a mesma rapidez. Em 2019, os volumes voltaram a se aproximar dos níveis anteriores ao pico — um padrão que reguladores veem como indicativo de rotas que se abrem sob cobertura política e se fecham quando a fiscalização se intensifica.
Um dos atores mais observados nesse período foi o Grupo Ahlatçı, um conglomerado de pequeno porte, sediado em Çorum, que atua em refino de ouro, joalheria, finanças e corretagem. Em janeiro de 2019, Tareck El Aissami — então vice-presidente venezuelano para assuntos econômicos e figura sancionada pelos Estados Unidos desde 2007 por suposto tráfico de drogas e ligações com o Irã e o Hezbollah — visitou a refinaria de ouro do Ahlatçı em Çorum. A visita ocorreu enquanto autoridades americanas advertiam ativamente a Turquia contra qualquer envolvimento no processamento de ouro venezuelano.
Mais tarde, o presidente do Grupo Ahlatçı, Ahmet Ahlatçı, confirmou que Erdogan o apresentou pessoalmente a Maduro durante a visita do presidente turco a Caracas, em 2018, descrevendo a refinaria do Ahlatçı como uma das mais avançadas da Turquia.
Segundo Ahlatçı, Maduro demonstrou interesse especial por se tratar de um grande país produtor de ouro. Embora Ahlatçı tenha negado publicamente processar ouro venezuelano e tenha insistido que todas as atividades estavam plenamente documentadas, oposicionistas e jornalistas investigativos têm retratado o grupo de forma consistente como símbolo de uma classe mais ampla de empresários alinhados a Erdogan.
Nessa narrativa, tais empresas seriam intermediárias de confiança, capazes de operar em ambientes politicamente sensíveis, onde atividade comercial e aprovação política se sobrepõem. O Ahlatçı e autoridades turcas negam as alegações de que o grupo funcione como um “proxy” financeiro ou como operador a serviço do governo.
O escrutínio se intensificou à medida que o Grupo Ahlatçı cresceu rapidamente após 2017. A empresa entrou na lista Fortune 500 Turquia em 2019 e, em pouco tempo, subiu para posições de destaque em vendas líquidas. Analistas associaram parte do avanço à forte demanda interna por ouro em meio à inflação e ao enfraquecimento da lira turca, enquanto críticos apontaram para uma posição favorecida em um período no qual o ecossistema do ouro na Turquia passou a refletir cada vez mais prioridades políticas.
Em 2020, as empresas do Ahlatçı já figuravam entre as maiores da Turquia em faturamento, reforçando a percepção de que o grupo havia se tornado um pilar central da era Erdogan.
Em maio de 2021, o Grupo Ahlatçı recebeu autorização para operar como instituição de moeda eletrônica, o que lhe permite emitir e-money e prestar serviços de pagamento. Para analistas de crimes financeiros, a convergência entre operações de ouro em grande escala e infraestrutura licenciada de pagamentos digitais levantou preocupações. Em diversas jurisdições, investigadores analisaram se ouro físico vindo de ambientes sob sanções pode ser “monetizado” por plataformas de moeda eletrônica ou convertido em ativos digitais. No caso venezuelano, essas hipóteses seguem no campo investigativo, e não como fatos estabelecidos, mas entram em avaliações mais amplas de risco.
As questões em torno do ouro se cruzaram com acusações de tráfico de drogas que ressurgiram na Turquia em 2021. Naquele ano, novas denúncias foram apresentadas por Sedat Peker, líder da máfia condenado e aliado de Erdogan que fugiu do país e ganhou grande atenção com vídeos online descrevendo supostos vínculos criminosos entre políticos e o crime organizado. Peker afirmou que Erkam Yıldırım, filho do ex-primeiro-ministro Binali Yıldırım — aliado próximo de Erdogan — teria ido à Venezuela para ajudar a estabelecer uma nova rota de cocaína da Colômbia para a Turquia. Segundo Peker, Yıldırım fez duas viagens ao país no início de 2021, permanecendo alguns dias em cada uma, argumentando que a Venezuela oferecia menos obstáculos de fiscalização.
Pouco depois das acusações, fotos de arquivo publicadas pela imprensa turca confirmaram a presença de Yıldırım em Caracas. As imagens o mostravam acompanhando uma delegação parlamentar oficial durante visita a uma escola financiada pelo governo turco e administrada pela Fundação Maarif. A visita levantou questionamentos, já que Yıldırım não ocupava cargo no Parlamento nem no governo. O ex-primeiro-ministro Binali Yıldırım negou as acusações, mas confirmou que o filho viajou à Venezuela, afirmando que a ida ocorreu no fim de 2020 para entregar suprimentos médicos durante a pandemia. A explicação foi amplamente contestada, já que a Venezuela registrava, à época, muito menos casos de Covid do que a Turquia.
Com Maduro agora sob custódia dos EUA, observadores esperam que tanto o fluxo do ouro venezuelano quanto as acusações sobre rotas de cocaína voltem a ser examinados em tribunais e no debate político.


