Empresa turca ligada a rede iraniana de contrabando de petróleo é exposta em processo judicial nos EUA
4 de maio de 2026 Abdullah Bozkurt / Estocolmo
Um detalhado processo federal americano, encerrado com uma decisão de tribunal de apelação neste mês, expôs uma sofisticada rede de violação de sanções ligada ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, revelando como uma empresa turca controlada por nacionais iranianos se envolveu em uma operação clandestina para disfarçar a origem do petróleo iraniano e direcionar os lucros a entidades acusadas de financiar o terrorismo.
O caso, ajuizado no Tribunal Distrital Federal dos EUA para o Distrito de Colúmbia, gira em torno da apreensão e confisco de carga de petróleo transportada a bordo de dois petroleiros — o M/T Arina e o M/T Nostos — como parte de uma investigação mais ampla sobre o comércio ilícito de petróleo iraniano.
No centro do caso está a Aspan Petrokimya Co., empresa turca controlada por um nacional iraniano que apresentou uma contestação judicial sobre a carga apreendida. Os promotores americanos argumentam que a suposta compra feita pela Aspan não foi uma transação comercial legítima, mas parte de um esquema maior que permite a atores estatais iranianos, incluindo o CGRI, monetizar remessas de petróleo em violação às sanções americanas.
O caso confirma mais uma vez um padrão há muito observado na Turquia sob o governo islamista do presidente Recep Tayyip Erdogan, no qual redes iranianas conseguem explorar os setores corporativo, industrial e financeiro turcos para contornar regimes internacionais de sanções com relativa facilidade.
Segundo a queixa, empresas dispostas a adquirir esse tipo de carga desempenham papel fundamental na sustentação dessas redes, permitindo efetivamente que o Irã converta remessas ocultas de petróleo em fluxos de receita que de outra forma seriam bloqueados pelos mecanismos de fiscalização de sanções.
O documento descreve um processo cuidadosamente orquestrado para ocultar a origem iraniana do petróleo em cada etapa. O petróleo bruto foi inicialmente carregado na Ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irã, antes de ser transferido no mar por meio de operações de navio para navio, método frequentemente utilizado para encobrir a verdadeira procedência da carga. Durante essas transferências, os navios desativaram deliberadamente seus transponders AIS (Sistema de Identificação Automática), desaparecendo efetivamente dos sistemas de rastreamento marítimo.
Para reforçar o engano, foram gerados documentos de embarque falsificados, indicando falsamente que a carga era originária de Omã, e não do Irã. Imagens de satélite citadas no processo mostram embarcações posicionadas lado a lado no Golfo Pérsico, confirmando visualmente ao menos uma dessas operações clandestinas de transferência.
A carga, de mais de 733 mil barris de petróleo bruto, permaneceu a bordo por meses e percorreu várias rotas marítimas estratégicas, incluindo o Golfo Pérsico, o Mar da Arábia, o Canal de Suez e o Mediterrâneo. O trajeto reflete um esforço deliberado para integrar a remessa aos fluxos do comércio global enquanto se ocultava sua origem.
Um aspecto particularmente notável do caso é que a carga de petróleo transitou pelo Estreito de Bósforo, um dos pontos de passagem marítimos mais críticos do mundo, sob jurisdição turca. Essa passagem evidencia a exposição geográfica da Turquia a esquemas de evasão de sanções, nos quais navios com cargas potencialmente ilícitas podem atravessar suas águas como parte de rotas de navegação internacional mais amplas, com fiscalização limitada.
As autoridades americanas enquadram o caso como parte de um esforço maior para desmantelar redes financeiras que apoiam atividades militantes. Segundo o processo, as receitas geradas com as vendas de petróleo iraniano constituem fonte fundamental de financiamento do CGRI e de sua Força Quds, ambos designados como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Acredita-se que esses recursos financiem grupos proxies, operações militantes regionais e atividades de inteligência mais amplas voltadas contra interesses americanos e de países aliados.
Os promotores retratam o CGRI como uma força econômica dominante dentro do Irã, profundamente inserida em setores como energia, transporte marítimo e finanças. Por meio de uma complexa teia de empresas de fachada e intermediários, a organização consegue ocultar seu papel nas transações petrolíferas enquanto continua gerando receitas expressivas.
O envolvimento de uma empresa turca aumenta a preocupação crescente de autoridades ocidentais de que a Turquia está se tornando cada vez mais exposta a redes de evasão de sanções. Nos últimos anos, diversas investigações apontaram o uso de empresas turcas como intermediárias no comércio restrito, frequentemente operando em ambientes regulatórios com supervisão e fiscalização deficientes.
Esse padrão não é novo. O caso Halkbank, que veio à tona durante as investigações de corrupção de 2013 na Turquia e mais tarde evoluiu para uma grande ação federal americana em 2016, demonstrou como o banco estatal turco Halkbank facilitou a lavagem de bilhões de dólares em nome do Irã em violação às sanções americanas. Evidências apresentadas em tribunais americanos indicaram que esses esquemas foram aprovados nos mais altos escalões do governo turco, com altos funcionários recebendo propinas vinculadas a transações orquestradas por atores estatais iranianos.
Desde então, dezenas de empresas turcas enfrentaram investigações criminais nos Estados Unidos, ao passo que o Departamento do Tesouro e o Departamento de Estado americanos designaram diversas empresas, entidades e pessoas físicas com sede na Turquia sob sanções por facilitar o comércio ilícito.
Nesse contexto, a Aspan parece se encaixar em um padrão bem estabelecido. Dados do registro comercial analisados pelo Nordic Monitor sugerem que a empresa foi estruturada de forma consistente com uma entidade fictícia destinada a facilitar a evasão de sanções.
A Aspan Petrokimya Ticaret Anonim Şirketi foi formalmente registrada em Istambul em 20 de fevereiro de 2020, com sede no distrito de Şişli. Os registros oficiais mostram que a empresa recebeu um mandato comercial excepcionalmente amplo, abrangendo comércio petroquímico, atividades relacionadas a petróleo e combustíveis, logística, armazenagem, distribuição e comércio internacional em múltiplos setores.
O registro detalha um escopo extenso de atividades permitidas que vão além dos petroquímicos para incluir bens industriais, maquinário, transações financeiras como empréstimos e captações, e a constituição de parcerias e joint ventures — estrutura frequentemente associada a entidades concebidas para obscurecer fluxos financeiros.
As alterações subsequentes indicam mudanças relevantes na propriedade da empresa. Em maio de 2023, a empresa foi transferida para Mahdieh Sancoulli, nacional iraniano que declarou residência nos Emirados Árabes Unidos. Em fevereiro de 2025, Sancoulli solicitou alterações em seus registros de identidade, passando a se identificar como nacional dos EAU em vez de iraniano — movimento que sugere uma tentativa de encobrir sua origem enquanto continuava operando dentro de uma rede sensível a sanções por meio de um veículo corporativo turco.
Os promotores americanos, no entanto, argumentam que as evidências não deixam dúvidas sobre o papel da Aspan. Em vez de entidades iranianas ou sediadas nos EAU vinculadas ao CGRI contestarem a apreensão, foi a Aspan — empresa registrada na Turquia — que apresentou contestação nos tribunais americanos buscando reverter a decisão de confisco.
A Aspan contestou a apreensão com base em três argumentos principais: propriedade da carga, suposto impacto sobre o comércio exterior e o requisito de intenção relacionado à influência sobre a conduta governamental.
As autoridades americanas rebateram que o petróleo pertencia à Companhia Nacional de Petróleo do Irã (NIOC), estreitamente ligada ao CGRI. Segundo os promotores, o petróleo bruto foi carregado no Irã, transferido entre navios no mar e, por fim, apreendido no Mediterrâneo como parte de uma operação de fiscalização de sanções.
O Tribunal de Apelações dos Estados Unidos para o Circuito do Distrito de Colúmbia manteve a posição do governo, confirmando a apreensão e o confisco de mais de 700 mil barris de petróleo bruto.
Em sua decisão de abril, o tribunal determinou que a propriedade deve ser avaliada no momento da conduta ilegal subjacente e concluiu que as evidências disponíveis demonstravam de forma plausível o controle da NIOC sobre o petróleo. O tribunal também observou que transações de petróleo iraniano em larga escala têm impacto direto nos mercados globais, afetando assim o comércio americano. Além disso, a estreita coordenação da NIOC com o CGRI sustentou a inferência de que as transações tinham como objetivo, ao menos em parte, apoiar atividades contra governos, incluindo os Estados Unidos.
A decisão confirmou em definitivo o julgamento do tribunal inferior, permitindo que o processo de confisco prosseguisse.
Para a Turquia, as implicações vão muito além de um caso isolado. As conclusões evidenciam vulnerabilidades estruturais que expõem empresas turcas a sanções secundárias americanas, minam a confiança nos mecanismos de supervisão regulatória e financeira do país e reforçam a percepção de que a Turquia cada vez mais serve como via de passagem para redes de comércio ilícito e evasão de sanções.



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