Últimos dias de vítima do expurgo revelam o custo humano da repressão pós-golpe na Turquia
Fotos dos últimos dias de um ex-professor que morreu em um hospital, em setembro, após sofrer um ataque cardíaco na Prisão de Kütahya, e os relatos de seus familiares revelam o impacto humano da purga promovida pela Turquia após o golpe de 2016 contra participantes do movimento Hizmet.
Nas imagens publicadas pelo site de notícias TR724, Cafer Ongun, conhecido por sua boa forma física e paixão pelo fisiculturismo, está quase irreconhecível após anos de perseguição, negligência e atendimento médico inadequado.
Ongun foi demitido de seu cargo de professor por decreto governamental após a tentativa de golpe de 2016. Ele foi preso pela primeira vez em março de 2017 e libertado oito meses depois. Mais tarde, um tribunal o condenou a seis anos e três meses de prisão por acusações relacionadas ao terrorismo, e ele foi preso novamente em novembro de 2023.
As acusações se baseavam em suposta filiação a uma associação ligada ao movimento Hizmet, uso do aplicativo de mensagens ByLock e manutenção de uma conta no agora extinto Bank Asya.
O presidente turco Recep Tayyip Erdoğan tem perseguido os participantes do movimento Hizmet, inspirado pelo falecido clérigo muçulmano Fethullah Gülen, desde que as investigações de corrupção de dezembro de 2013 o implicaram, juntamente com alguns membros de sua família e círculo íntimo.
Ao classificar as investigações como uma tentativa de golpe do Hizmet e uma conspiração contra seu governo, Erdoğan passou a mirar os participantes do movimento. Ele designou o movimento como organização terrorista em maio de 2016 e intensificou a repressão após a tentativa de golpe de julho do mesmo ano, da qual acusou Gülen de ser o mentor. O movimento nega veementemente qualquer envolvimento no golpe ou em atividades terroristas.
Desde então, o governo turco passou a considerar como indícios de “ligação terrorista” atividades como ter conta no Bank Asya — um dos maiores bancos comerciais da Turquia à época —, usar o aplicativo de mensagens criptografadas ByLock, disponível na App Store e no Google Play, e assinar o jornal agora extinto Zaman ou outras publicações associadas ao movimento. Tais critérios têm sido usados para identificar e prender supostos participantes do Hizmet sob a acusação de pertencimento a uma organização terrorista.
Ongun sofreu um ataque cardíaco na prisão de Kütahya em maio e foi hospitalizado. Seu estado piorou e, em junho, ele foi submetido a uma cirurgia cardíaca no Hospital Siyami Ersek, em Istambul. Após a operação, sofreu uma embolia na UTI, ficando paralisado. Teve outro infarto e permaneceu um mês internado antes de falecer.
De acordo com seus familiares, Ongun enfrentou sérias dificuldades após sua demissão. Trabalhou como carregador de cargas para sustentar a família. Durante sua primeira detenção, ficou preso em uma cela para quatro pessoas compartilhada por 16 detentos.
Na segunda prisão, já com a saúde debilitada, foi privado de exames e medicamentos regulares, apesar de haver relatório médico recomendando acompanhamento. Sua condição se deteriorou rapidamente na prisão.
Durante a cirurgia em Istambul, os médicos teriam dado apenas 1% de chance de sobrevivência. Ele sofreu uma hemorragia cerebral durante o procedimento, e os médicos emitiram um laudo de incapacidade, recomendando sua libertação por motivos médicos.
Familiares afirmaram que, durante sua internação, Ongun era vigiado por cinco gendarmes e, em alguns momentos, chegou a ser algemado à cama.
Segundo a Lei nº 5275, a pena de um preso que, devido a doença grave ou incapacidade, é incapaz de se manter por conta própria nas condições do cárcere — e que não representa perigo concreto à sociedade — pode ser suspensa até a recuperação. No entanto, essa suspensão raramente é aplicada na prática.
A Associação de Direitos Humanos (İHD) afirma que mais de 1.400 presos doentes estão atualmente detidos na Turquia, centenas em estado crítico. As queixas incluem atrasos em transferências para hospitais, tratamento inadequado nas enfermarias prisionais e laudos forenses que permitem a permanência de presos gravemente enfermos sob custódia.
Segundo dados do Ministério da Justiça, 709 mortes em prisões foram registradas nos primeiros 11 meses de 2024, conforme informações fornecidas em resposta a uma investigação parlamentar.
Desde 2016, mais de 126 mil pessoas foram condenadas por supostas ligações com o movimento Hizmet, e 11.085 continuam presas, de acordo com os números mais recentes do ministério.


