Vídeo de vítima das purgas turcas refletindo sobre anos de sofrimento viraliza após sua morte
Fonte: Stockholm Center for Freedom (SCF) | Tradução e complementação: Voz da Turquia
19 de março de 2026
Um vídeo gravado por Talha Dalkıran — professor de educação religiosa exonerado por decreto de emergência após o golpe frustrado de 2016 na Turquia — viralizou nas redes sociais após sua morte, ocorrida na terça-feira, 18 de março de 2026, em Edremit, na província de Balıkesir.
Dalkıran foi encontrado inconsciente no corredor de sua casa por volta das 3h da manhã. Levado em caráter de emergência ao hospital, foi submetido a cirurgia, mas não resistiu. Havia trabalhado como professor em Istambul antes de ser afastado do serviço público. Após a demissão, mudou-se para Edremit, onde sobrevivia como colhedor de azeitonas e operário da construção civil. O funeral foi realizado na Mesquita Central de Kalkım, com sepultamento logo em seguida.
Em dezembro de 2025, Dalkıran gravou um vídeo antes do amanhecer, ao sair para mais um dia de trabalho braçal. No registro, ele falou diretamente sobre o peso de quase uma década de exoneração: “A demissão do magistério já se arrasta por oito anos e meio, nove anos. E essas experiências ainda não saíram da nossa cabeça.” Sobre os responsáveis, invocou uma convicção religiosa: “Aqueles que nos impuseram essa perseguição estão dormindo tranquilamente. Que durmam. Não há véu entre o oprimido e Deus. Terão de responder por isso no além.”
PROFESSOR DEMITIDO POR DECRETO, ENCONTRADO INCONSCIENTE EM CASA, MORRE
Talha Dalkıran, que foi encontrado inconsciente no corredor de sua casa em Edremit, Balıkesir, e submetido a uma cirurgia de emergência no hospital, faleceu na noite passada.
Dalkıran havia tirado uma foto alguns meses atrás, em uma manhã fria de dezembro, a caminho do trabalho… pic.twitter.com/idZ8HC4UHR
— Sevinç Özarslan (@sevincozarslan) 18 de março de 2026
Nenhum processo criminal foi aberto contra Dalkıran. Sua exoneração ocorreu exclusivamente por decreto — sem acusação formal, sem julgamento. Apesar disso, permanecia legalmente impedido de exercer qualquer cargo público. Mantinha, segundo relatos, a esperança de um dia voltar a ensinar.
O caso de Dalkıran é um entre muitos. Após a tentativa de golpe de julho de 2016, o governo turco demitiu por decreto de emergência mais de 130.000 servidores públicos — entre eles 34.795 professores, 4.156 juízes e promotores, além de militares e policiais. Os atingidos perderam o acesso ao emprego público, tiveram passaportes cancelados e viram seus nomes anotados nos sistemas da previdência social, o que funcionava como sinal de alerta para empregadores privados. Muitos foram forçados a trabalhar em subempregos informais e fisicamente arriscados.
O governo do presidente Recep Tayyip Erdoğan responsabiliza o movimento liderado pelo clérigo Fethullah Gülen pela articulação do golpe e o classifica como organização terrorista desde as investigações de corrupção de 2013, que atingiram aliados do próprio Erdoğan. O movimento nega ter participado do golpe ou qualquer envolvimento em atividades terroristas. A morte de Dalkıran reacendeu nas redes sociais o debate sobre o custo humano das purgas — um custo que, para muitos atingidos, foi pago não em tribunais, mas no silêncio de anos de trabalho invisível.
Fonte: Video of Turkish purge victim reflecting on years of hardship goes viral after death – Stockholm Center for Freedom



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