Turquia reconhece dependência de urânio russo: transição nuclear em meio a sanções
Turquia concedeu vantagens à Rússia em usina nuclear de US$ 20 bilhões em meio a sanções e à guerra Rússia-Ucrânia
A instalação dos principais componentes da primeira unidade do reator foi concluída em 1º de março de 2022, segundo a Akkuyu Nuclear JSC, empresa criada para executar o projeto e totalmente controlada pela Rússia.
O governo turco reconheceu publicamente sua dependência da Rússia para o fornecimento de combustível de urânio para a Usina Nuclear de Akkuyu, uma admissão que reflete tanto o crescente desconforto em Ancara quanto um esforço mais amplo de reequilibrar as relações em direção ao Ocidente.
O ministro da Energia, Alparslan Bayraktar, disse à comissão orçamentária do Parlamento, em 7 de novembro, que a Turquia depende inteiramente da estatal russa Rosatom para o urânio que alimentará sua primeira usina nuclear. Suas declarações representam o primeiro reconhecimento oficial de que Moscou, já principal fornecedora de gás natural da Turquia, também controla a cadeia de combustível nuclear do país.
“Haverá dependência de urânio? Haverá, sim”, disse Bayraktar. “Para superar essa dependência, estamos falando de cooperação em combustível tanto com o país com o qual já estamos trabalhando quanto com outros com quem estamos discutindo novos projetos.”
O comentário do ministro confirmou o que especialistas em energia vêm alertando há anos: que o projeto de US$ 20 bilhões de Akkuyu, construído e operado pela Rússia sob um acordo de 2010, criou uma nova forma de dependência estratégica.
Pelo contrato, a Rosatom financia, é proprietária e opera a usina, enquanto sua subsidiária TVEL fornece todo o combustível de urânio. Esse arranjo torna praticamente impossível para a Turquia comprar ou utilizar urânio de qualquer outra fonte sem a aprovação de Moscou.
Após o encontro entre o presidente Recep Tayyip Erdogan e o presidente Donald Trump, Turquia e Estados Unidos assinaram um acordo de energia nuclear. A Turquia foi representada pelo ministro da Energia, Alparslan Bayraktar (à frente, à esquerda), e os EUA, pelo secretário de Estado Marco Rubio (à frente, à direita). Washington, D.C., 25 de setembro de 2025.
Até recentemente, autoridades turcas evitavam descrever isso como uma vulnerabilidade. Mas a mudança de tom reflete um clima diferente na política externa. Ancara vem tentando reconstruir laços com os Estados Unidos e aliados europeus após anos de tensão, e a diversificação energética passou a fazer parte desse reajuste político mais amplo.
As declarações de Bayraktar ocorreram poucas semanas depois de a Turquia assinar um memorando de entendimento com Washington sobre cooperação nuclear civil. O acordo abre caminho para a participação de empresas americanas e sul-coreanas na planejada segunda usina nuclear do país, na cidade de Sinop, no norte, substituindo um plano anterior de entregar o projeto à Rosatom.
Autoridades descrevem a nova parceria como um sinal de que a Turquia quer evitar repetir o modelo de Akkuyu, em que a Rússia mantém a propriedade total e o controle operacional. O ministro da Energia afirmou que o objetivo para os próximos projetos é “acesso à tecnologia, custos competitivos e participação direta das empresas turcas”.
A declaração também mostra como a experiência de Ancara com a Rússia influenciou sua visão de segurança energética de longo prazo. Quando o acordo de Akkuyu foi assinado, há 15 anos, o projeto foi celebrado como um avanço que daria à Turquia energia nuclear pela primeira vez. Os quatro reatores da usina, localizada na costa do Mediterrâneo, foram projetados para fornecer até 10% da eletricidade do país quando estiverem totalmente operacionais.
Ainda assim, a dependência do combustível e da engenharia russos aprofundou-se mais do que muitos esperavam. As sanções ocidentais após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, complicaram as transferências financeiras para o projeto, atrasaram alguns pagamentos russos e obrigaram Ancara a considerar fontes alternativas de financiamento. Mesmo assim, o contrato de fornecimento de urânio permanece intacto, e a TVEL, da Rosatom, continua sendo a única fornecedora aprovada.
Durante sua apresentação, Bayraktar tentou justificar o arranjo destacando a economia potencial em importações de gás natural. Ele afirmou que, quando Akkuyu começar a produzir eletricidade, permitirá à Turquia economizar até 7 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano. “Isso reduzirá nossa fatura de importação e apoiará nossas metas climáticas”, disse.
O cálculo do ministro, porém, também evidencia o paradoxo no centro da estratégia energética da Turquia. Enquanto o país espera economizar dinheiro importando menos gás da Rússia, ao mesmo tempo importará urânio do mesmo país para manter os reatores em funcionamento. Analistas de energia há muito alertam que essa dependência apenas desloca o problema, sem resolvê-lo.
O ministro também afirmou que a eletricidade de alto custo a ser comprada da usina de Akkuyu se aplicará apenas a dois de seus quatro reatores, enquanto a energia dos dois restantes será adquirida a preços de mercado, argumentando que, por isso, as críticas ao acordo seriam injustas. No entanto, continua incerto quando os quatro reatores entrarão em operação.
Há anos especialistas sustentam que depender de um único fornecedor estrangeiro para recursos estratégicos — primeiro o gás e agora o urânio — deixa a Turquia vulnerável a pressões políticas e interrupções no fornecimento. O reconhecimento mais recente de Ancara sugere que o governo chegou à mesma conclusão.
A Turquia possui pequenas jazidas de urânio em Manisa, Yozgat e Nevşehir. Mas essas reservas seguem inexploradas, e o país não dispõe de instalações para converter ou enriquecer o urânio em combustível nuclear. Mesmo que conseguisse produzir seu próprio urânio, o controle da Rosatom sobre a tecnologia dos reatores de Akkuyu significa que nenhum combustível alternativo poderia ser utilizado sem certificação russa.
A decisão de envolver Estados Unidos e Coreia do Sul no projeto de Sinop representa uma tentativa deliberada de diversificar tanto fornecedores quanto tecnologia. “As futuras usinas nucleares não seguirão um modelo de país único”, disse um alto funcionário a jornalistas após a participação de Bayraktar no Parlamento.
Para Moscou, a guinada gradual da Turquia na direção de parceiros ocidentais representa um revés. A Rosatom esperava dominar o setor nuclear turco por décadas com uma série de projetos moldados a partir de Akkuyu. Porém, a mudança de prioridades de Ancara e o ritmo lento das obras no local levaram a uma reavaliação.
Ainda assim, a relação entre os dois países permanece complexa. Enquanto busca laços energéticos mais equilibrados, Ancara continua mantendo fortes vínculos econômicos com Moscou. No mesmo dia em que Bayraktar apresentou seu orçamento, o governo turco publicou no Diário Oficial um novo acordo internacional de transporte com a Rússia.
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, aprovou e publicou no Diário Oficial um acordo há muito pendente com a Rússia destinado a melhorar o transporte rodoviário de cargas entre os dois países:
O protocolo, assinado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, substitui um acordo de 1988 e busca modernizar as operações de transporte rodoviário de cargas entre os dois países. Segundo autoridades, ele deverá agilizar procedimentos aduaneiros, reduzir atrasos no transporte e fortalecer a infraestrutura necessária para alcançar a meta de US$ 100 bilhões em comércio bilateral.
O timing do novo acordo chamou a atenção. Ao mesmo tempo em que Ancara falava em reduzir sua dependência energética da Rússia e se voltar para parceiros nucleares ocidentais, também colocava em vigor um acerto que amplia a cooperação comercial e logística com Moscou.
Para muitos em Ancara, isso reflete o permanente ato de equilíbrio da Turquia, que tenta ao mesmo tempo manter canais abertos com a Rússia e ampliar seu engajamento com o Ocidente.


