Processo contra escola de Nova York ligada ao Hizmet alimenta preocupações de repressão transnacional da Turquia nos EUA
Um processo judicial envolvendo uma escola de Nova York ligada ao Movimento Hizmet, de base religiosa, alimentou preocupações de que a Turquia esteja estendendo aos EUA sua repressão de longa duração ao movimento, explorando o sistema jurídico americano.
O caso gira em torno de um empréstimo contraído pela Brooklyn Amity School em 2011 junto ao agora extinto Bank Asya para adquirir seu prédio, informou o The New York Sun. Os liquidantes do banco alegam que a escola ainda deve US$12,5 milhões, enquanto a escola afirma que já quitou a dívida com a garantia que depositou ao contrair o empréstimo original, antes da apreensão do banco.
Documentos judiciais mostram que ambas as partes concordaram em 2023 que a garantia havia sido aplicada à dívida. Os liquidantes do banco buscaram posteriormente reverter esse acordo, argumentando que um processo pendente na Turkiye os impedia de acessar os fundos da garantia.
Enquanto os advogados do banco descreveram o assunto como uma disputa financeira ordinária, os advogados da escola disseram que a ação faz parte de uma campanha mais ampla do governo turco contra instituições afiliadas ao movimento. Citaram suposta conduta inadequada na produção de provas e assédio sistemático a doadores como evidência de que o caso tinha motivação política.
O Bank Asya, que chegou a ser um dos maiores bancos comerciais da Turkiye e era conhecido por seus vínculos com o Movimento Hizmet, foi colocado sob controle do Fundo de Seguro de Depósitos e Poupança (TMSF), um órgão governamental geralmente encarregado de administrar bancos insolventes, antes da tentativa de golpe de 2016, e posteriormente foi dissolvido.
O presidente turco Recep Tayyip Erdoğan tem como alvo seguidores do Movimento Hizmet, inspirado pelo clérigo Fethullah Gülen, baseado nos EUA e falecido em 2024, desde que investigações de corrupção em dezembro de 2013 o envolveram, assim como alguns membros de sua família e seu círculo íntimo. Erdoğan descartou as apurações como uma conspiração do Hizmet e posteriormente designou o movimento como organização terrorista em maio de 2016, intensificando uma repressão em larga escala após a tentativa de golpe em julho do mesmo ano, que acusou Hizmet de orquestrar. O movimento nega envolvimento na tentativa de golpe ou em qualquer atividade terrorista.
A escola informou ao tribunal que sua receita líquida anual caiu de US$2,3 milhões antes de 2016 para US$640 mil em anos posteriores, devido à pressão exercida pelas autoridades turcas. Segundo os documentos judiciais, alguns estudantes tiveram seus passaportes cancelados, famílias foram ameaçadas com investigações ligadas ao terrorismo por pagar mensalidades e investigações criminais foram abertas contra doadores.
A escola ainda alegou que os autores ocultaram informações cruciais ao deixar de divulgar uma decisão de um tribunal comercial de Istambul que rejeitou uma ação judicial que eles citavam para justificar por que os fundos da garantia não podiam ser aplicados à dívida. A escola pediu ao tribunal que imponha sanções por conduta inadequada na produção de provas conforme a lei de Nova York e que o caso seja arquivado.
Defensores da escola afirmam que o caso se encaixa em um padrão mais amplo no qual as autoridades turcas têm como alvo escolas ligadas ao Hizmet no exterior, num esforço para transferir o controle delas à Fundação Maarif, um órgão educacional apoiado pelo Estado. Segundo dados oficiais, 232 escolas ligadas ao movimento em 21 países foram tomadas e transferidas à Fundação Maarif desde 2016.
A reportagem do The New York Sun recordou que o mais recente relatório de direitos humanos do Departamento de Estado dos EUA afirmou que o governo turco empreendeu uma campanha global contra participantes do Movimento Hizmet, ao mesmo tempo em que pressiona outros governos a agir contra pessoas ligadas ao movimento sem o devido processo legal.
O jornal afirmou que o caso pode se tornar um teste significativo sobre se os tribunais americanos são capazes de reconhecer e impedir que governos estrangeiros usem litígios civis para perseguir objetivos políticos no exterior.
Um analista jurídico citado pelo jornal disse que a Turkiye estava explorando os tribunais americanos para conduzir guerra jurídica contra seus oponentes políticos, acrescentando que permitir que ativos estrangeiros apreendidos sejam transformados em armas de litígio contra americanos mina a integridade do sistema jurídico dos EUA.
John Thomas, estrategista político e diretor gerente da Nestpoint Associates, também alertou que campanhas jurídicas sofisticadas poderiam explorar pontos cegos no sistema de justiça americano.
A inúmeração também observou que os tribunais dos EUA começaram a agir para conter tais campanhas. Lembrou que um juiz federal americano rejeitou no ano passado um pedido do governo turco que buscava os registros financeiros de cinco pessoas ligadas ao movimento. O juiz citing preocupações de que o caso tinha motivação política e fazia parte de uma campanha mais ampla de repressão transnacional.
Organizações como Human Rights Watch e Freedom House identificaram a Turkiye como uma das principais perpetradoras de supressão transfronteiriça de dissidentes, citando um padrão de pedidos de extradição com motivação política, vigilância e pressão sobre governos anfitriões. O Departamento de Estado dos EUA e as Nações Unidas também manifestaram preocupação com o uso indevido por Ancara de mecanismos internacionais para perseguir críticos no exterior, alertando que tais práticas colocam em perigo os direitos de indivíduos exilados.



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