Voz da Turquia

Notícias

 Últimas Notícias

Operação secreta da inteligência turca na Moldávia volta a ser examinada pela Justiça

Operação secreta da inteligência turca na Moldávia volta a ser examinada pela Justiça
outubro 12
23:36 2026

Uma operação secreta da inteligência turca para capturar ilegalmente críticos do presidente Recep Tayyip Erdoğan na Moldávia provocou anos de repercussões jurídicas e políticas. O ex-chefe do serviço de inteligência moldavo foi condenado por abuso de função, outros altos funcionários das áreas de segurança e migração passaram a responder a acusações criminais, e a Moldávia foi condenada pelo principal tribunal europeu de direitos humanos por participar do que os juízes descreveram como uma “transferência extralegal” ilícita.

A controvérsia, longe de estar encerrada, voltou recentemente aos tribunais moldavos. Em junho de 2026, um tribunal de Chișinău determinou que os promotores reabrissem partes da investigação sobre a operação de setembro de 2018, autorizando especificamente a retomada da apuração contra pessoas que haviam sido excluídas da persecução penal e a identificação de outros participantes da transferência forçada.

A decisão de 15 de junho, proferida pela unidade de Buiucani do Tribunal de Chișinău, veio após um promotor pedir que os autos criminais fossem devolvidos para investigações complementares. Segundo a cobertura judicial baseada na decisão, o promotor solicitou a retomada dos procedimentos contra pessoas anteriormente eximidas de responsabilidade e a identificação de outras que possam ter participado da operação da inteligência turca em território moldavo. A condenação do ex-chefe da inteligência moldava Vasile Botnari é definitiva e não foi reaberta.

A decisão oferece aos promotores moldavos outra oportunidade de examinar uma operação que, segundo constatou o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), foi realizada conjuntamente pelos serviços de segurança moldavo e turco e planejada de antemão para impedir que os cidadãos turcos recorressem às proteções legais a que tinham direito.

A operação teve como alvo professores e administradores da rede de escolas Orizont, na Moldávia, associada ao movimento Gülen, uma rede cívica global inspirada no falecido líder religioso turco Fethullah Gülen, o crítico mais incisivo de Erdoğan.

Erdoğan classificou como organização terrorista o movimento Gülen — um grupo que nunca foi associado a qualquer tipo de violência desde sua criação por Gülen nos anos 1960 — após grandes investigações de corrupção, em 2013, que implicaram o então primeiro-ministro, hoje presidente, familiares seus e vários de seus aliados políticos e empresariais em múltiplas acusações. As investigações também envolveram Reza Zarrab, que burlava sanções contra o Irã, e Yasin al-Qadi, empresário saudita anteriormente incluído em listas de sanções das Nações Unidas e dos Estados Unidos por suposto financiamento da Al-Qaeda. Ambos haviam obtido acesso incomum a Erdoğan e a seu gabinete para a prática de múltiplos crimes.

Documento citado: decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos de 11 de junho de 2019, no caso Özdil e outros contra a República da Moldávia, que constatou que as autoridades moldavas violaram os direitos de cinco professores turcos ao detê-los secretamente e transferi-los para a Turquia em uma operação conjunta dos serviços de inteligência moldavo e turco.

Erdoğan atribuiu as investigações de corrupção ao movimento Gülen, uma alegação negada pelo próprio Gülen, e em seguida iniciou uma ampla repressão a pessoas e instituições associadas ao grupo, incluindo escolas no exterior. A classificação do movimento Gülen como organização terrorista pela Turquia não é compartilhada pelos Estados Unidos nem pela União Europeia e não foi adotada internacionalmente.

Os cinco homens que trabalhavam nas escolas Orizont também foram duramente perseguidos pelo governo Erdoğan. Eles foram identificados como Yasin Özdil, Müjdat Çelebi, Rıza Doğan, Sedat Hasan Karacaoğlu e Mehmet Feridun Tüfekçi, todos cidadãos turcos.

O tribunal de Estrasburgo estabeleceu que a pressão de Ancara começou anos antes da transferência forçada. Seguindo orientações de Ancara, o embaixador turco na Moldávia acusou publicamente professores de terrorismo, sem apresentar provas que sustentassem acusações tão graves. Sob pressão da Turquia, em março de 2018, o diretor de uma escola Orizont em Chișinău foi detido e interrogado por agentes da inteligência moldava.

Os professores solicitaram asilo na Moldávia em abril de 2018, informando às autoridades que temiam processos e represálias caso fossem devolvidos à Turquia. Em junho, promotores moldavos os informaram de que não havia investigações criminais em andamento contra eles.

Apesar dessas circunstâncias, sete funcionários da Orizont foram capturados em 6 de setembro de 2018, no que o TEDH posteriormente descreveu expressamente como uma operação conjunta dos serviços de inteligência moldavo e turco.

Eles foram levados diretamente ao Aeroporto Internacional de Chișinău, onde uma aeronave especialmente fretada os aguardava. Foram enviados imediatamente à Turquia. Suas famílias ficaram semanas sem informações sobre seu paradeiro.

Vasile Botnari, economista e político moldavo, foi diretor do Serviço de Segurança e Inteligência da Moldávia (SIS) de maio de 2018 a junho de 2019.
Vasile Botnari, economista e político moldavo, foi diretor do Serviço de Segurança e Inteligência da Moldávia (SIS) de maio de 2018 a junho de 2019.

O tribunal de Estrasburgo concluiu que o uso de uma aeronave fretada demonstrava que a operação moldavo-turca havia sido preparada antecipadamente. Segundo o tribunal, a operação foi organizada para surpreender os homens e privá-los de qualquer possibilidade real de defesa no sistema judicial moldavo.

As autoridades moldavas, afirmou o tribunal, “os transferiram deliberadamente e diretamente para as mãos das autoridades turcas”. Os juízes concluíram que a operação constituiu uma “transferência extralegal” que contornou as proteções garantidas pelo direito moldavo e internacional.

A conclusão forneceu uma confirmação judicial de força incomum da cooperação direta entre a inteligência turca e o serviço de segurança de um país europeu na campanha de Ancara contra supostos apoiadores de Gülen no exterior.

A operação tornou-se ainda mais controversa pela maneira como as autoridades migratórias moldavas trataram os pedidos de asilo dos professores. O Departamento de Migração e Asilo rejeitou os pedidos com base em uma nota sigilosa do Serviço de Segurança e Inteligência da Moldávia (SIS), segundo a qual os homens representavam uma ameaça à segurança nacional.

No entanto, de acordo com os autos do TEDH, as autoridades responsáveis pelo asilo concluíram que, nos demais aspectos, os requerentes preenchiam os requisitos legais para obter proteção. A decisão desfavorável se baseou na avaliação secreta de segurança. Um ponto crucial é que as decisões não foram comunicadas aos homens antes de serem capturados e colocados no voo para a Turquia.

Prédio da unidade de Durlești do Liceul Teoretic Orizont. A escola integra uma rede que atua na Moldávia desde 1992, com instalações que oferecem educação moderna apoiada pela comunidade empresarial turca.
Prédio da unidade de Durlești do Liceul Teoretic Orizont. A escola integra uma rede que atua na Moldávia desde 1992, com instalações que oferecem educação moderna apoiada pela comunidade empresarial turca.

Suas famílias receberam os documentos pertinentes somente depois. Quando os advogados contestaram as decisões, os processos foram rejeitados, em parte, porque as procurações não haviam sido assinadas pessoalmente pelos homens — algo que dificilmente poderiam fazer depois de já terem sido transportados à força para a Turquia.

O tribunal de Estrasburgo constatou que não haviam sido instaurados processos criminais contra eles na Moldávia e que não lhes haviam sido concedidas as garantias processuais mínimas necessárias contra ações arbitrárias do Estado.

Em sua decisão de 11 de junho de 2019, no caso Özdil e outros contra a República da Moldávia, o TEDH constatou por unanimidade violações do artigo 5º, que protege a liberdade e a segurança, e do artigo 8º, que protege a vida privada e familiar. A Moldávia foi condenada a pagar a cada um dos cinco requerentes 25 mil euros por danos morais.

Dois outros cidadãos turcos envolvidos na mesma operação, Hüseyin Bayraktar e Sertif Ayrı, posteriormente chegaram a acordos amigáveis com a Moldávia perante o TEDH, pelos quais cada um também recebeu 25 mil euros.

Os processos criminais internos revelaram muito mais sobre a organização da transferência forçada. Uma decisão de 19 de novembro de 2024 da Suprema Corte de Justiça da Moldávia reconstitui a investigação com um nível incomum de detalhes.

Documento citado: decisão de novembro de 2024 da Suprema Corte da Moldávia no processo contra o ex-chefe da inteligência Vasile Botnari, relativo à transferência forçada de cidadãos turcos para a Turquia em 2018.

Segundo os autos, os promotores acabaram instaurando processos criminais sobre a atuação de funcionários das áreas de migração e inteligência moldavas na expulsão ilegal dos sete cidadãos turcos. Vasile Botnari, que chefiava o SIS à época, foi formalmente acusado de abuso de função.

Durante os procedimentos de 13 de julho de 2020, Botnari admitiu sua culpa e reconheceu que havia coordenado a operação para retirar os cidadãos turcos da Moldávia. Os autos da Suprema Corte afirmam que o SIS pagou pela aeronave fretada que transportou os homens para a Turquia. O voo custou 348.432 lei moldavos.

Em 15 de julho de 2020, o Tribunal de Chișinău o considerou culpado de abuso de função. Ele recebeu uma multa de 88 mil lei moldavos e foi proibido de ocupar cargos públicos por cinco anos. Os promotores haviam inicialmente pedido três anos de prisão, segundo os autos da Suprema Corte, mas o tribunal de primeira instância acabou impondo a sanção financeira após considerar a confissão de Botnari, o ressarcimento dos danos e outras circunstâncias atenuantes.

Hakan Fidan, atual ministro das Relações Exteriores da Turquia, orquestrou uma série de operações de inteligência, incluindo incidentes de falsa bandeira, para apoiar o governo Erdoğan durante seu período à frente da Organização Nacional de Inteligência (MİT).
Hakan Fidan, atual ministro das Relações Exteriores da Turquia, orquestrou uma série de operações de inteligência, incluindo incidentes de falsa bandeira, para apoiar o governo Erdoğan durante seu período à frente da Organização Nacional de Inteligência (MİT).

O julgamento ocorreu a portas fechadas porque os materiais do processo haviam sido classificados como sigilosos. A própria sentença foi inicialmente secreta e não foi disponibilizada ao público.

A decisão do TEDH exigiu que a Moldávia pagasse 125 mil euros aos cinco requerentes do caso Özdil, valor que as autoridades moldavas calcularam em aproximadamente 2,4 milhões de lei. Os registros judiciais internos mostram que Natalia Botnari, esposa de Botnari, pagou esse valor para ressarcir o Estado. Ela também reembolsou ao SIS os 348.432 lei do voo fretado para a Turquia.

Os promotores moldavos calcularam o prejuízo financeiro total decorrente dos atos de Botnari em aproximadamente 2,75 milhões de lei. A inclusão da própria aeronave fretada no cálculo dos danos reforçou que o serviço de inteligência moldavo não havia simplesmente entregado os homens a agentes turcos na fronteira. Ele financiou a aeronave usada para transportá-los à Turquia.

Os autos da Suprema Corte revelam que Botnari não era, inicialmente, o único alto funcionário moldavo investigado. Três outros funcionários foram formalmente acusados no processo criminal nº 2019898086: Olga Poalelungi, então chefe do Departamento de Migração e Asilo; Alexandru Baltaga, diretor-adjunto do SIS; e Alexandru Balan, também diretor-adjunto do SIS.

Eles foram investigados com base no artigo 328 do Código Penal da Moldávia, por excesso ou abuso de autoridade. O processo abrangia supostos atos de funcionários do Departamento de Migração e Asilo, do Ministério do Interior e do SIS relacionados à retirada dos cidadãos turcos. Mas, em 21 de janeiro de 2020, o promotor Victor Plugaru retirou as acusações contra os três.

No caso de Poalelungi, os promotores concluíram que as decisões do departamento de migração não haviam sido ilegais e que sua instituição não havia participado diretamente da retirada física dos homens da Moldávia. Baltaga e Balan foram eximidos de responsabilidade com o fundamento de que Botnari havia conduzido pessoalmente a operação. Isso deixou o chefe do SIS como principal réu.

É precisamente esse aspecto da investigação anterior que ganhou novo significado com a ordem de junho de 2026. O promotor pediu autorização judicial para retomar procedimentos contra pessoas anteriormente excluídas da persecução penal e identificar outros participantes e possíveis coautores da operação.

O tribunal acolheu parcialmente o pedido, devolvendo os materiais da investigação à promotoria de Chișinău. Com isso, abriu potencialmente novas frentes em um caso que, durante anos, havia deixado Botnari como praticamente o único funcionário moldavo responsabilizado criminalmente por uma operação que envolvia diversos órgãos estatais e um serviço de inteligência estrangeiro.

Os registros judiciais também revelam que a primeira tentativa de investigar a operação não avançou. Uma denúncia sobre a suposta atuação ilegal do SIS foi apresentada à Procuradoria-Geral em outubro de 2018. O promotor Oleg Afanasii inicialmente se recusou a abrir um processo criminal. Essa posição mudou após uma alteração no cenário político moldavo.

Em 2 de agosto de 2019, foram instaurados procedimentos criminais relativos a supostos atos ilegais de funcionários do departamento de migração e do SIS na retirada dos sete cidadãos turcos. Os materiais foram classificados como sigilosos porque, segundo os promotores, as comunicações entre os órgãos e as razões que fundamentaram a operação continham segredos de Estado. Por isso, o julgamento de Botnari ocorreu a portas fechadas.

Momento em que professores turcos vinculados às escolas Orizont da Moldávia foram sequestrados na operação de 6 de setembro de 2018, que levou à sua transferência para a Turquia.
Momento em que professores turcos vinculados às escolas Orizont da Moldávia foram sequestrados na operação de 6 de setembro de 2018, que levou à sua transferência para a Turquia.

O sigilo gerou mais controvérsia porque os familiares dos homens transferidos tinham capacidade limitada de acompanhar a acusação ou contestar decisões dos investigadores. Entre as pessoas que questionaram a condução do caso estava Galina Tufekci, esposa de Mehmet Feridun Tufekci. Inicialmente, ela havia sido reconhecida como parte lesada nos procedimentos relativos à captura e à retirada de seu marido.

O promotor Victor Plugaru posteriormente encerrou sua participação como vítima, alegando, entre outros fatores, que a Moldávia já havia pago as indenizações determinadas pelo TEDH. Essa decisão acabou sendo examinada em litígios posteriores.

Os procedimentos na Suprema Corte estabeleceram que as indenizações determinadas em Estrasburgo haviam sido pagas a Mehmet Tufekci pelas violações de seus direitos e não extinguiam automaticamente os direitos processuais próprios de sua esposa na Moldávia.

O tratamento dado a Galina Tufekci tornou-se uma das razões pelas quais o processo interno continuou muito tempo depois da condenação de Botnari.

A operação moldava ocorreu em meio a uma campanha muito mais ampla, iniciada pelo governo Erdoğan em 2014. As autoridades turcas promoveram prisões, demissões, processos e apreensões de bens em larga escala, tendo como alvo centenas de milhares de pessoas acusadas de vínculos com o movimento Gülen. Ancara também pressionou governos estrangeiros a fechar escolas, fundações e empresas ligadas a Gülen e a transferir supostos integrantes do movimento para a Turquia. Na Moldávia, a pressão diplomática era visível antes da captura dos professores.

Os mecanismos descritos pelo TEDH deixam pouca dúvida de que a transferência havia sido organizada previamente. Os homens foram capturados no mesmo dia, levados rapidamente ao aeroporto e colocados em uma aeronave fretada. Não tiveram oportunidade efetiva de contestar sua classificação como ameaça à segurança nacional ou o indeferimento de seus pedidos de asilo antes de serem colocados sob custódia turca. O tribunal apontou especificamente a aeronave fretada como prova de que a operação conjunta havia sido planejada com antecedência.

Galina Tufekci, esposa de um dos cidadãos turcos sequestrados na Moldávia e transferidos ilegalmente para a Turquia, trava há anos uma batalha judicial para responsabilizar funcionários moldavos por seu papel na transferência forçada do marido.
Galina Tufekci, esposa de um dos cidadãos turcos sequestrados na Moldávia e transferidos ilegalmente para a Turquia, trava há anos uma batalha judicial para responsabilizar funcionários moldavos por seu papel na transferência forçada do marido.

O tribunal também rejeitou o argumento da Moldávia de que as autoridades desconheciam o temor dos homens de serem devolvidos à Turquia, observando que eles haviam manifestado expressamente esse medo em seus pedidos de asilo. O TEDH afirmou que a maneira como a operação foi conduzida demonstrava que as autoridades pretendiam surpreender os homens e deixá-los sem tempo ou possibilidade de defesa. Assim, concluiu que sua detenção não havia sido legal nem necessária e fora arbitrária.

Oito anos após a operação de setembro de 2018, a Moldávia ainda enfrenta suas consequências. A culpa de Botnari foi estabelecida judicialmente. Sua punição e questões processuais relacionadas continuaram a gerar recursos, enquanto a investigação criminal sobre a operação mais ampla foi agora devolvida aos promotores.

Em 22 de abril de 2026, o promotor responsável pelo caso retomado pediu o adiamento dos procedimentos e a devolução dos autos para investigações complementares. A ordem de 15 de junho de 2026 acolheu parcialmente esse pedido. O tribunal afirmou que sua decisão visava permitir novas investigações contra pessoas anteriormente excluídas da persecução penal e identificar outros participantes, sem violar a proteção de Botnari contra um novo julgamento pela mesma conduta.

A investigação retomada deixa sem resposta talvez a questão mais importante, praticamente intocada na acusação original: até onde se estendia a responsabilidade pela transferência forçada no aparelho de Estado moldavo e como foi organizada a coordenação operacional com o lado turco.

Os registros judiciais existentes já mostram a participação do serviço de inteligência da Moldávia, atos de suas autoridades migratórias, o uso de estruturas do Ministério do Interior, uma aeronave fretada financiada pelo SIS e cooperação direta com a agência de inteligência turca.

Continuam sem esclarecimento nos registros públicos a identidade dos agentes de inteligência turcos envolvidos, as comunicações pelas quais a operação foi coordenada e a possível autorização ou facilitação da missão por outros funcionários moldavos além de Botnari. A decisão de junho de 2026 deu agora aos promotores um caminho jurídico para buscar respostas a pelo menos algumas dessas questões.

Foi amplamente noticiado que Vladimir (Vlad) Plahotniuc, líder de fato da Moldávia à época da operação de transferência forçada de 2018, exercia influência significativa sobre o aparato policial e de inteligência do país e mantinha estreita cooperação com a inteligência turca. Ele tinha contatos próximos com o presidente Erdoğan e posteriormente adquiriu a cidadania turca, segundo confirmação feita em 2020 pelo então procurador-geral moldavo Alexandr Stoianoglo.

Plahotniuc passou de figura política dominante na Moldávia, em 2018, a fugitivo após o colapso de seu sistema político em 2019. Ficou cerca de seis anos no exterior antes de ser preso na Grécia, em 2025, extraditado para a Moldávia e, em 2026, condenado a 19 anos de prisão por seu envolvimento no gigantesco caso de fraude bancária do país.

Vladimir (Vlad) Plahotniuc, então líder do Partido Democrático, que governava a Moldávia, e figura política dominante no país, em encontro com o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan.
Vladimir (Vlad) Plahotniuc, então líder do Partido Democrático, que governava a Moldávia, e figura política dominante no país, em encontro com o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan.

A operação na Moldávia não foi um episódio isolado. Operações semelhantes da inteligência turca contra supostos integrantes do movimento Gülen provocaram processos criminais e disputas diplomáticas em outros países europeus.

No Kosovo, seis cidadãos turcos associados a escolas e instituições ligadas a Gülen foram detidos e transferidos para a Turquia em 29 de março de 2018, em uma operação que envolveu autoridades kosovares e a agência de inteligência turca. As expulsões causaram um grande escândalo político depois que o então primeiro-ministro Ramush Haradinaj declarou não ter sido informado antecipadamente e demitiu o então ministro do Interior Flamur Sefaj e o diretor da Agência de Inteligência do Kosovo (KIA), Driton Gashi. O Parlamento kosovar posteriormente investigou a operação e identificou numerosas supostas violações legais e processuais.

Promotores kosovares apresentaram posteriormente acusações criminais contra Gashi e outros funcionários por seu papel na transferência forçada. Eles alegaram que Gashi utilizou indevidamente avaliações de inteligência para facilitar a revogação das autorizações de residência dos cidadãos turcos e sua retirada do Kosovo. Dois outros funcionários acabaram absolvidos, mas Gashi foi condenado. Em um novo julgamento concluído em 24 de fevereiro de 2026, o Tribunal de Primeira Instância de Pristina voltou a considerar o ex-chefe da inteligência culpado de abuso de função e o condenou a mais de quatro anos de prisão, além de quatro anos de proibição de ocupar cargos na administração pública após o cumprimento da pena.

Estudantes seguram cartazes em protesto contra a transferência forçada e ilegal de professores turcos da Moldávia para a Turquia.
Estudantes seguram cartazes em protesto contra a transferência forçada e ilegal de professores turcos da Moldávia para a Turquia.

A Suíça também abriu uma investigação criminal sobre uma operação da inteligência turca contra um opositor ligado a Gülen. Promotores federais suíços investigaram dois agentes de inteligência turcos que haviam trabalhado na Embaixada da Turquia em Berna sob cobertura diplomática, diante de alegações de que coletavam informações políticas e participaram de um plano para sequestrar um empresário suíço de origem turca considerado simpatizante do movimento Gülen. Em 2018, a Suíça expediu mandados nacionais de prisão contra os dois, afirmando que poderiam ser presos caso retornassem ao país. As autoridades suíças também concluíram que a imunidade diplomática não os protegia de processos, pois os supostos atos extrapolavam as funções diplomáticas legítimas.

Os casos do Kosovo e da Suíça, juntamente com os procedimentos moldavos, ilustram as repercussões jurídicas geradas em diversas jurisdições europeias pelas operações de inteligência de Ancara contra supostos integrantes do movimento Gülen. Em cada caso, as alegações de atuação da inteligência turca foram além da vigilância convencional e envolveram tentativas ou concretizações de transferências transfronteiriças, provocando investigações criminais, processos judiciais ou medidas governamentais nos países envolvidos.

Abdullah Bozkurt / Estocolmo — Nordic Monitor

Publicado originalmente em 7 de outubro de 2026

Fonte: Nordic Monitor

Related Articles

0 Comments

No Comments Yet!

There are no comments at the moment, do you want to add one?

Write a comment

Write a Comment

Mailer