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Conferência divulga o Movimento Hizmet

Conferência divulga o Movimento Hizmet
junho 15
09:35 2016

Conferência Internacional: Dimensões de um movimento transnacional: Fethullah Gülen e o Hizmet

Evento que ocorreu no dia 19 de maio de 2016 na Universidade de São Paulo (USP) com o intuito de explicar o que é o movimento Hizmet, de onde veio e para onde está rumando. Foi também bem explicado e bem enfatizado quem é Fethullah Gülen e seu papel como inspirador e inspiração para o Hizmet.

A abertura do evento foi feita por Marcelo de Andrade Romero, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP (PRCEU/USP), na qual ele destacou o trabalho de promoção da educação, do diálogo com a religião nas aulas e o interesse da USP em ver como as outras culturas fazem isso também.

Em seguida subiu ao palco Mustafa Göktepe, presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT) e discorreu sobre os valores do Hizmet e da CCBT. Destacou também que essa era a primeira vez que uma conferência como essa ocorria na América Latina. Conferência essa que possui o intuito de aumentar o conhecimento do Hizmet e promover um mundo com mais diálogo, repeito e paz.

A próxima pessoa a subir no palco foi Monique Sochaczewski, do Conselho Acadêmico da CCBT. Ela contou um pouco sobre como os livros de Orhan Pamuk a inspiraram a querer ir para Istambul, e como ela eventualmente foi parar nessa cidade, meio que por acidente.

Um keynote foi então feito por Alp Aslandogan, que mora nos EUA. Ele falou sobre a história do Hizmet, relatando que o movimento começou na década de 60, em um período de muita intolerância na Turquia. Ele afirmou que Gülen tentou mudar esse clima de intolerância no país afirmando que se deveria investir na educação para combater isso. Então, conforme o movimento foi crescendo, bolsas foram oferecidas aos jovens para que pudessem estudar, principalmente nas faculdades. Foram também oferecidos dormitórios e cursinhos preparatórios. Escolas foram criadas para que pudesse haver um ensino secular e de qualidade oferecido à população turca, lugares seguros que seus filhos poderiam frequentar.

O Sr. Alp também relatou à plateia um dos princípios que guiam o Hizmet: o da valorização do nosso interior, mesmo acima do exterior. Isso quer dizer que nosso coração se sente realmente satisfeito quando o nosso eu interior está preenchido. O Sr. Aslandogan falou de como a grande habilidade de Gülen com a retórica e a lógica ajudou ao movimento ganhar impulso e uma visão clara de sua missão. Gülen também sempre esteve em paz com a ciência e a democracia, inclusive até fazendo desses dois fatores carros-chefe do movimento, uma vez que o próprio Islã também sempre se deu bem com e até usou a ciência e a democracia como pilares de seus argumentos. Gülen também sempre afirmou que um dos fatores determinantes para atingirmos nossos objetivos é amarmos a paz, mas sempre lembrando que é um dever do estado, e não nosso manter a segurança, cabendo a nós apenas sermos pacíficos. É a partir daí que pode surgir o diálogo inter-religioso. E foi assim que Gülen se encontrou com os líderes de várias religiões minoritárias na Turquia, sempre buscando o diálogo e o trabalho em conjunto para a paz universal.

O Sr. Aslandogan também nos contou como funciona o Kimse Yok Mu, uma ONG ligada ao Hizmet que se dedica a ajudar os mais necessitados, atingidos por desastres naturais, como os terremotos.

Então o Sr. Aslandogan relatou o papel de Recep Tayyip Erdogan na história da Turquia e do Hizmet. O relacionamento do então Primeiro-Ministro da Turquia começou muito bem com o Hizmet e com a Turquia toda. Mas a partir de 2010 as atitudes de Erdogan começaram a mudar da água para o vinho. E principalmente a partir de 2013, depois de uma investigação e corrupção contra ele e pessoas de seu círculo interno, Erdogan ficou como que uma onça cutucada com vara curta. Ele perseguiu aos jornalistas e a todos ligados à investigação de corrupção. Com isso classificou Fethullah Gülen como terrorista e o Hizmet como um estado paralelo que queria tomar o seu poder. Iniciou-se desde então uma caça-às-bruxas contra o Hizmet e todos envolvidos com o movimento. O governo turco começou a traçar um perfil político de todos os cidadãos. Erdogan também aumentado os poderes do presidente, principalmente depois de ele mesmo passar de primeiro-ministro para essa posição. Mas o Hizmet era visto por ele e seu partido, o AKP, como um barreira contra seus objetivos de aumento exponencial de poder. Aproveitando isso, Erdogan usou o Hizmet como um bode expiatório (junto com os curdos) para todos seus problemas, e portanto como justificativa de todas as suas ações. Empresas, escolas, hospitais de pessoas ligadas ao Hizmet foram fechadas. Muitas famílias ficaram separadas por causa disso. Tudo isso foi muito similar a vários outros regimes autoritários europeus como os nazistas, fascistas e comunistas.

O Sr. Alp também falou do conceito do PERMA. Um acrônimo, referindo-se a emoções positivas, que propiciam um engajamento com as pessoas ao seu redor, algo que é duradouro. Também as relações positivas, a autenticidade, a alegria são uma escolha, por isso devemos ser sinceros e verdadeiros aos nossos valores e às pessoas a nossa volta. É preciso coragem para tudo isso, afinal “porque ficaríamos com os fracos quando poderíamos estar com os forte”?

Foram formadas três mesas que reuniam os mais diversos convidados, vindo de países como Turquia, EUA, Reino Unido, Filipinas e Brasil. Na primeira mesa, com o tema “Hizmet em contextos globais” estavam presentes Turan Kayaoglu, turco que mora nos EUA, o embaixador David Shinn, dos EUA e o embaixador Luiz Henrique.

O Sr. Turan relatou a evolução do movimento. De 1965 a 1999 ele foi nacional, e de 1990 a 2015 foi transnacional. Mas agora ele é um movimento global. Os EUA são um grande exemplo, existem várias organizações lá, mas no mundo inteiro existem muitas também em vários países. O Sr. Turan também destacou as diferenças entre transnacional e global. No começo a Turquia era o centro de tudo no movimento, mas com os acontecimentos dos últimos anos, o Hizmet vem se tornando cada vez mais global. Poderíamos afirmar que, Erdogan, com a sua perseguição ao movimento está fazendo com que ele fique menos centralizado, em especial centralizado na Turquia. Então isso da espaço para o surgimento de sinergias locais. Não é mais muito um movimento turco, mas movimentos locais, com toda uma gama de peculiaridades, inclusive na prática local do Islã. Essa sinergia entre os fatores locais e o Islã está moldando uma nova visão e prática do Islã no mundo todo, onde um beneficia ao outro. E o Hizmet moldará o Islã moderno.

Em seguida, que falou foi o Embaixador David Shinn, dos EUA. Ele começou relatando o caso da invasão da polícia turca na Tuskon em 2015. Falou de como ela agia na Africa. Isso e muito mais fez Erdogan para prejudicar os negócios do Hizmet, não só na África, mas na Turquia também. Desde 1994 o Hizmet vem abrindo escolas na África, mas elas não são diretamente relacionadas com o movimento. Os empresários e pais trabalham em conjunto para o benefício dessas escolas. O Sr. Shinn também relatou o caso dos professores assassinados na Somália, onde atiradores não identificados passaram atirando em uma van de uma escola do Hizmet na capital daquele país, matando professores turcos e funcionários da escola. Na África existem diversas revistas e canais de televisão só Hizmet, transmitindo diversos tipos de conteúdo, mas em grande parte educacional e científico. O Sr. Shinn também reforçou a ideia de que o movimento já está tão espalhado e tão forte, que mesmo quando Gülen não estiver mais vivo, o movimento continuará crescendo e prosperando.

Por último na mesa 1 veio o Embaixador Luiz Henrique. Ele começou falando que no começo o AKP e Erdogan até tinham uma boa relação com o Hizmet. Até 2010 tudo ia bem, mas a partir de 2013, com o escândalo de corrupção do mais alto escalão do governo de Erdogan, Gülen o interrompeu seu apoio ao partido governista e o então Primeiro-Ministro Erdogan começou uma verdadeira caça-às-bruxas contra o Hizmet. Ele também relatou que o AKP conseguiu a maioria dos seus votos da camada mais pobre da Turquia, a maioria proveniente do interior, onde a modernidade ainda não tinha alcançado. Informou também que no momento Erdogan está tentado substituir o sistema parlamentarista da Turquia por um presidencialista. Lembrou ele do caso do ex-Primeiro-Ministro Davutoglu, que renunciou recentemente por pressão de Erdogan, que não estava contente com seu jeito de governar, um tanto quanto independente. Ressaltou o Embaixador que um dos defeitos da democracia é que ela propicia o surgimento de ditadores. Nisso tudo, o Hizmet simboliza a modernidade, frente ao autoritarismo do presidente turco. Falando do Hizmet no Brasil, o Sr. Luiz nos mencionou a CCBT, o colégio Belo Futuro, os intercâmbios, os cursos de turco, livros traduzidos, etc. Ocorreu também no Brasil o IFLC, um festival que celebra a diversidade de línguas e culturas de todo o mundo através da música e da dança. O IFLC surgiu da Olimpíada de Turco que era realizada na Turquia, mas que foi proibida pelo governo de Erdogan. Foi posta a ideia de que na verdade há uma lado positivo da perseguição de Erdogan contra o Hizmet: em vez de abafar o movimento, ele está ajudando-o a crescer e a se tornar transnacional e global. Pois o movimento não depende de governos. Por exemplo: ele afirmou que é possível sim acabarmos com a pobreza, mas que não podemos ficar dependendo dos governos para isso, temos que por a mão na massa e ajudarmos uns aos outros. Todos podemos servir. Turan mencionou que por exemplo em países de regimes autoritários, como do Oriente Médio, o trabalho do Hizmet fica muito mais difícil. Mas alguns países muçulmanos do norte da África também dificultam muito o trabalho do Hizmet. “Abençoados são os que sofrem perseguição”.

Na mesa dois, se iniciou a próxima conversa com Erkan Toguslu. Ele começou falando sobre as aspectos de transição do Islã. Ele afirmou que está havendo uma transição do sentimento de ser para um sentimento de pertencer. Ele afirmou que o Islã está parando de se identificar com um determinado território ou etnia. O movimento do secularismo e até só pós-secularismo também vêm crescendo entre os muçulmanos. Falou bastante sobre a população suburbana, de que há uma mudança quando uma nova geração vem, e essa nova geração está se integrando ao local e sociedade em que vive. Há o princípio disseminado de ser responsável enquanto muçulmano.

Em seguida quem falou foi Flávia Pasqualin. Ela focou nas relações dos turcos aqui no brasil. A Sra. Flávia falou bastante de brasileiras que conhecem muçulmanos pela Internet e ficam deslumbradas pois os idealizam como príncipes perfeitos em cavalos brancos. E muitos desses homens da Internet são turcos. Mas de qualquer forma, na maioria dos casos, os brasileiros tem muito pouco conhecimento da Turquia, dos turcos e de sua cultura. Muitos ainda acham que turco é a mesma coisa que árabe, ou que na Turquia só existe dunas de areia com oásis e camelos. Mas agora com a presença do movimento Hizmet no Brasil, turcos de vem para cá. O movimento se baseia antes de tudo nos ensinamentos de Bediüzzaman Said Nursi, sábio intelectual muçulmano turco. Gülen pegou os ensinamentos de Nursi e aplicou nos princípios de amar aos seres humanos e a trabalhar e servir a humanidade. Atualmente há mais de 500 tucos no Brasil. Já houveram muitos casos de turcos casando com brasileiras. No grupos dos abis e ablas turcos no Brasil (os abis são os homens casados e as ablas são as mulheres casadas). As ablas da comunidade participam todas as atividades da comunidade, e também a estudares, inclusive fazendo mestrado e doutorado. Gülen defende que a mulher estude para não ficar indefesa.

Em seguida falou Liza Dumovich sobre como começou o contato dos brasileiros com os muçulmanos. Mostrou que os libaneses vinham com um passaporte do império Otomano, e por isso eram chamados de turcos. E que no começo o Brasil só recebeu libaneses e sírios, mas que agora, além dos turcos, recebe também africanos muçulmanos. E os turcos do Hizmet promovem diversos eventos aqui no Brasil, eu sua maioria relacionados às artes e à cultura, mas também promove muitos jantares. Pela CCBT, o Hizmet distribui carne nas comunidades carentes, fazendo uma conexão entre as religiões. Também se comemora o dia da Turquia, com homenagens e premiações. Já as crianças turcas no Brasil, nascidas aqui ou vindas da Turquia, todas estudam no Colégio Belo Futuro, montado e mantido pelos próprios turcos, mas também abertos a todos. Não se ensina religião nas escolas turcas. E todas essas e outras atividades visam integrar os turcos entre si e com a sociedade brasileira. Entre os homens existem os estudantes e os abis.

Na mesa 3 Aydogan Vatantas teve uma mensagem lida, pois não pode estar presente. Falando da história do movimento, ele falou que até o começo dos anos 2000 as coisas iam muito bem para todos. A democracia vinha finalmente funcionando na Turquia, depois de a República turca ter sido instaurada por Mustafa Kemal Atatürk, e de ter sofrido vários golpes militares ao longo do tempo, finalmente parecia que agora as coisas iriam deslanchar. Mas a apartir de 2010-2013, o Primeiro-Ministro e agora Presidente Erdogan, deu uma guinada brusca na direção do autoritarismo.

Depois Max Farrar falou sobre como toda essa mudança climática está formando grandes ondas de migração da África para outras regiões do mundo. Mas os ricos só estão ficando mais ricos, e os pobres mais pobres. A Turquia vem cada vez mais recebendo migrantes e refugiados de guerra, da Síria, mas também de outros países, totalizado mais de 3 milhões de pessoas. E todo tipo de ameaça está crescendo, pelo mundo todo, não apenas na Europa. Pode-se notar também, infelizmente, um diminuição da solidariedade social pelo mundo todo, não existem mais comunidades fechadas, próximas. É aí que entra o Hizmet, para melhorar a vida humana, conhecido como a sociedade do diálogo. O movimento prega fazer as coisas ombro-a-ombro, e não cara-a-cara, para eliminarmos a ignorância e a divisão entre as pessoas. O Hizmet tenta mostrar que ser rico não traz felicidade, e este é p problema na base de tudo, as pessoas buscam preencher seus corações com o materialismo, mas isso apenas gera o deslocamento e o radicalismo. Por isso vemos que o Hizmet é muito parecido com os movimentos seculares, principalmente quanto à mentalidade e aos objetivos.

Por fim falou Henelito Sevilla Jr, das Filipinas e de sua relação com a Turquia e o Ocidente. Falou que até certo tempo a Turquia estava apenas interessada no ocidente, e não dava muita atenção para o outro lado do globo. Humanismo é a forma de pensamento por de trás do Hizmet, portanto a educação é solução para tudo. E essa educação deve ser feita de baixo para cima, e assim até crises podem ser derrubadas com a educação. Henelito falou também de como o Kimse Yok Mu foi a primeira instituição a ajudar as Filipinas depois de desastres. Falou que foi fundada, graças aos turcos, a Pacific Dialogue Foundation, a Service Without Borders, e que foram estabelecidos voos Turquia x Manila. Um ponto que ele frisou foi de que os estados não podem mais proporcionar um bom serviço à população, portanto deve ser as pessoas ajudando-se mutuamente que deve ser o futuro. Muitos culpam a Deus pelos problemas, mas é a ganância das pessoas que está na raiz de todos os problemas.

Renato José Lima Trevisan

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