Turquia e a sucessão de Erdogan: disputa de poder e saúde do presidente
Relatos sobre lapsos verbais cada vez mais frequentes, aparentes momentos de confusão, falhas de memória, explosões de irritação e sinais visíveis de fadiga do presidente turco Recep Tayyip Erdogan têm renovado questionamentos sobre a saúde do líder de 72 anos e se um possível declínio relacionado à idade, somado a uma condição neurológica de longa data, pode estar afetando seu desempenho no cargo.
As preocupações com sua condição também intensificaram disputas entre centros de poder dentro do establishment governista, incluindo membros de sua própria família, sobre quem poderá suceder o líder mais longevo da Turquia caso problemas de saúde o afastem da política.
A questão é particularmente relevante na Turquia, onde amplos poderes foram concentrados na presidência após o referendo constitucional de 2018, que transformou o país em um sistema presidencialista executivo. Erdogan supervisiona pessoalmente praticamente todas as decisões importantes envolvendo política interna, Judiciário, serviços de inteligência e segurança, finanças públicas, operações militares e política externa, deixando pouco espaço para freios institucionais ou delegação de autoridade.
Informações confidenciais indicam que Erdogan tem dedicado menos tempo à gestão cotidiana, passando a depender cada vez mais de um círculo restrito de assessores presidenciais que controlam o acesso a ele, inclusive para membros de seu próprio partido, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP). Uma disputa interna na família Erdogan, cujos membros têm conhecimento direto de sua saúde, teria se intensificado nos últimos anos, com facções rivais buscando apoio no AKP, nas Forças Armadas, nos serviços de inteligência e em outros centros de poder do Estado.
Questionamentos sobre a saúde de Erdogan circulam há anos. Investigações anteriores indicaram que ele passou por cirurgia de câncer colorretal em 2011 e que sofre de epilepsia, condição que exigiria monitoramento próximo por um círculo restrito de auxiliares de confiança. O governo turco tem negado repetidamente essas alegações e frequentemente reage de forma agressiva a especulações sobre sua condição médica.
Nos últimos anos, porém, episódios envolvendo o presidente tornaram-se mais difíceis de descartar como casos isolados. Erdogan tem demonstrado, em algumas ocasiões, cansaço físico durante aparições públicas, chegando a cochilar em eventos, além de dificuldades para manter o foco ao falar, perder o fio da meada, confundir nomes e datas e apresentar acessos súbitos de irritação.
Especialistas médicos observam que a epilepsia não se limita a crises convulsivas. Em alguns pacientes, especialmente aqueles que convivem com a condição há muitos anos, podem ocorrer dificuldades cognitivas que se agravam com o envelhecimento. Estudos apontam possíveis problemas de memória de curto prazo, atenção, velocidade de processamento e recuperação de palavras.
Sem acesso a prontuários médicos ou avaliações independentes, é impossível determinar se as mudanças observadas estão ligadas à epilepsia, aos efeitos colaterais de medicamentos, ao envelhecimento natural ou a outras condições. O gabinete de Erdogan mantém sigilo sobre seus exames, optando por eventos cuidadosamente encenados para demonstrar vitalidade.
Ainda assim, a recorrência de episódios envolvendo lapsos de fala, confusão e desconforto visível tem intensificado o escrutínio sobre sua capacidade de governar.
Registros públicos também levantam dúvidas sobre sua mobilidade. Em diversos vídeos, o presidente parece caminhar mais lentamente, por vezes apoiando-se em assessores ao subir ou descer escadas. Observadores também notaram o uso frequente de calçados ortopédicos ou de equilíbrio, possivelmente destinados a oferecer maior estabilidade.
Neurologistas destacam que, embora a epilepsia normalmente não cause problemas permanentes de marcha, pacientes mais idosos com histórico prolongado podem apresentar dificuldades de equilíbrio ou coordenação, seja por crises recorrentes, efeitos de medicamentos ou alterações neurológicas associadas à idade.
Alguns episódios ocorreram diante das câmeras. Em maio de 2023, durante um evento em Hatay, Erdogan aparentemente não reconheceu seu chefe de segurança, recusando um copo d’água oferecido por ele. Só aceitou quando seu filho, Bilal Erdogan, interveio. Posteriormente, a família indicou a necessidade de acompanhamento próximo durante a campanha eleitoral.
Erdogan também depende fortemente de teleprompters em discursos públicos. Embora isso seja comum entre líderes, ele já demonstrou dificuldades quando ocorrem falhas técnicas, incluindo pausas prolongadas e perda de sequência. Em entrevistas televisionadas, há indícios de que respostas foram previamente preparadas, reforçando a percepção de controle rigoroso de suas aparições públicas.
Mesmo em contextos controlados, o presidente por vezes parece ter dificuldade para compreender perguntas, exigindo intervenções de interlocutores. Episódios recentes, incluindo um em abril de 2026, reforçaram essas preocupações.
Esses sinais têm alimentado debates crescentes em Ancara sobre a sucessão. Facções dentro do governo, do partido e da família já se posicionam para um cenário pós-Erdogan.
Entre os nomes mais citados estão o ministro das Relações Exteriores Hakan Fidan, o ex-ministro das Finanças Berat Albayrak, o filho do presidente Bilal Erdogan e o presidente do Parlamento Numan Kurtulmuş.
A rivalidade mais visível envolve Bilal Erdogan, considerado por muitos o sucessor preferido, e Albayrak, que mantém influência significativa dentro do partido e da burocracia estatal. Outro genro, Selçuk Bayraktar, anteriormente visto como potencial candidato, teria se alinhado mais com Bilal.
Hakan Fidan, ex-chefe de inteligência, também é visto como ambicioso e vem se posicionando discretamente, apoiado por redes políticas, empresariais e midiáticas. Já Kurtulmuş conduz esforços próprios para reunir apoio interno.
O sigilo em torno da saúde de Erdogan contrasta com práticas de muitas democracias, onde avaliações médicas de líderes são divulgadas. Na Turquia, porém, discutir o tema é sensível, e autoridades já investigaram ou processaram indivíduos por especulação sobre sua condição.
À medida que Erdogan se aproxima de sua terceira década como figura dominante na política turca, o aumento de incidentes públicos torna mais difícil minimizar preocupações sobre sua saúde. Se esses episódios resultam de doença neurológica, efeitos de medicamentos, envelhecimento ou uma combinação de fatores permanece desconhecido. Ainda assim, o sigilo contribui para a crescente especulação sobre a capacidade de um líder que concentra poderes sem precedentes na história moderna do país.



There are no comments at the moment, do you want to add one?
Write a comment