Parlamentares europeus e defensores de direitos pedem que Turquia inclua Movimento Hizmet em eventual anistia
Um grupo de 54 parlamentares, especialistas jurídicos, acadêmicos e defensores de direitos humanos pediu à Turquia que garanta que qualquer anistia ligada à sua renovada iniciativa de paz com os curdos cubra todos os que consideram presos políticos, incluindo pessoas acusadas de vínculos com o Movimento Hizmet.
Em uma carta aberta de 3 de julho, disponibilizada on-line em 15 de julho, dirigida ao presidente Recep Tayyip Erdoğan, ao presidente do Parlamento, Numan Kurtulmuş, e ao ministro da Justiça, Akın Gürlek, os signatários alertaram que medidas que beneficiem apenas grupos selecionados poderiam aprofundar divisões e minar a confiança pública. Eles pediram o fim do uso de leis antiterrorismo contra dissidência pacífica, a implementação de decisões do tribunal europeu de direitos humanos, a restauração da independência do Judiciário e um diálogo nacional envolvendo comunidades afetadas por violações de direitos.
A carta saudou os esforços renovados para resolver, por meio do diálogo, o conflito de longa data da Turquia com o movimento político curdo, mas argumentou que uma paz duradoura não poderia ser alcançada por meio de medidas seletivas ou politicamente motivadas.
A carta afirmou que reportagens na Turquia sugeriam que o governo poderia introduzir uma anistia limitada a determinados grupos. O documento não identificou essas reportagens nem descreveu uma proposta específica do governo.
Entre os signatários estão 10 membros do Parlamento Europeu: Nathalie Loiseau, Brando Benifei, Kathleen Van Brempt, Lucia Yar, Reinier van Lanschot, Anna Strolenberg, Leoluca Orlando, Hanna Gedin, Jonas Sjöstedt e Verena Mertens. Três membros da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa — Emmanuel Fernandes, Garret Ahearn e James MacClear — também assinaram a carta.
Também constam entre os signatários o ex-presidente da Suprema Corte do Quênia Willy Mutunga e a organização de defesa das liberdades civis Statewatch, sediada em Londres.
O apelo afirma que qualquer processo de anistia ou normalização, para ter credibilidade, deveria cobrir “todos os presos políticos sem exceção”, independentemente dos grupos aos quais as autoridades acreditam que estejam associados.
Os signatários afirmaram que políticos, jornalistas e ativistas curdos foram detidos arbitrariamente e que prefeitos eleitos foram substituídos por administradores nomeados pelo governo. Disseram ainda que mais de 100 mil funcionários públicos foram demitidos por meio de decretos de emergência sem o devido processo legal, e que milhares de associações, fundações e instituições de ensino foram fechadas sob alegações de vínculo com o Movimento Hizmet.
O presidente turco Recep Tayyip Erdoğan tem como alvo participantes do Movimento Hizmet, inspirado pelo falecido clérigo muçulmano Fethullah Gülen, desde que investigações de corrupção em dezembro de 2013 o implicaram, junto com alguns membros de sua família e de seu círculo íntimo. Ele classificou as investigações como uma conspiração gülenista e designou o movimento como organização terrorista em maio de 2016, intensificando uma repressão generalizada após uma tentativa de golpe em julho do mesmo ano, que ele atribuiu a Gülen. O movimento nega qualquer envolvimento na tentativa de golpe ou em atividades terroristas.
Após a tentativa de golpe, o governo turco declarou estado de emergência (OHAL), que permaneceu em vigor até 19 de julho de 2018. Durante esse período, o governo realizou um expurgo de instituições estatais sob o pretexto de combate ao golpismo, editando uma série de decretos governamentais conhecidos como KHKs. Mais de 130 mil servidores públicos, incluindo 4.156 juízes e promotores, além de mais de 24 mil integrantes das Forças Armadas, foram sumariamente afastados de seus cargos por suposta filiação ou relação com “organizações terroristas”, por meio de decretos-lei de emergência não sujeitos a controle judicial nem parlamentar.
A carta aberta surge no momento em que a Turquia analisa uma legislação destinada a avançar uma iniciativa de paz com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Uma comissão parlamentar aprovou em fevereiro recomendações para reformas legais em paralelo à deposição de armas pelo grupo, incluindo um mecanismo temporário para reintegrar membros que renunciem à violência.
O relatório da comissão, no entanto, evitou explicitamente propor uma anistia geral. O texto afirmou que as medidas legais não deveriam criar uma percepção de anistia ou impunidade, e recomendou que os casos envolvendo ex-militantes fossem avaliados individualmente.
O PKK, designado organização terrorista pela Turquia e por seus aliados ocidentais, anunciou em 2025 que se dissolveria e encerraria sua campanha armada, atendendo a um apelo de seu líder preso, Abdullah Öcalan. O conflito, iniciado em 1984, já matou dezenas de milhares de pessoas.
Os signatários também pediram à Turquia que cumpra decisões do Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) envolvendo o preso ativista da sociedade civil Osman Kavala, o ex-líder político pró-curdo Selahattin Demirtaş e o ex-professor Yüksel Yalçınkaya.
O tribunal europeu já pediu a soltura de Kavala e Demirtaş. No caso de Yalçınkaya, constatou violações do direito a um julgamento justo e de outros direitos, e afirmou que a Turquia precisa corrigir problemas sistêmicos em condenações por terrorismo baseadas em provas obtidas do aplicativo de mensagens criptografado ByLock.
As autoridades turcas consideram o ByLock uma ferramenta secreta de comunicação entre apoiadores do Movimento Hizmet desde a tentativa de golpe de 15 de julho de 2016, apesar da falta de provas de que as mensagens do ByLock estivessem relacionadas ao golpe fracassado.
Embora o TEDH tenha deixado claro, em diversos casos, que o uso do aplicativo ByLock não constitui crime, detenções e prisões de pessoas por suposto uso do ByLock continuam ocorrendo na Turquia.
A carta pediu à União Europeia, ao Conselho da Europa e aos parlamentos nacionais que apoiem um processo de paz baseado em tratamento igualitário, direitos humanos e princípios democráticos.



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