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Traficante internacional de cocaína procurado pelo Brasil construiu negócio na Turquia

Traficante internacional de cocaína procurado pelo Brasil construiu negócio na Turquia
agosto 12
17:52 2026

Um traficante de drogas jordaniano com ficha criminal que remonta a três décadas conseguiu se estabelecer na Turquia sob identidade falsa, obter autorização de residência, abrir uma empresa em Istambul e até garantir proteção jurídica diante de um mandado de prisão emitido pelo Brasil.

Waleed Issa Ahmad Khamees (65 anos), cujo sobrenome aparece nos registros judiciais brasileiros sob diversas variantes — incluindo Khmayis, Khamayis e Khamays —, instalou-se discretamente na Turquia, aparentemente com a ajuda de conspiradores locais, e conseguiu evitar ser sinalizado apesar de sua longa ficha criminal, que se estende da Europa ao Brasil.

Seu caso certamente não é isolado. Na última década, dezenas de foragidos e criminosos procurados internacionalmente escolheram a Turquia como base de operações, obtendo residência e até cidadania, adotando nomes turcos e ganhando acesso aos setores financeiro, bancário e corporativo do país. Isso ocorreu sob o governo permissivo do presidente Recep Tayyip Erdoğan, que tem feito vista grossa à atividade criminosa organizada, desde que os fundos ilícitos continuem sustentando a economia combalida do país.

A trajetória de Khamees até a Turquia se desenrolou dentro desse ecossistema de criminalidade, deliberadamente fomentado pelo governo Erdoğan. Seus problemas só surgiram após pressão e exposição por parte do Brasil. Seus processos judiciais também mostram que Khamees conseguiu obter decisões favoráveis até mesmo da mais alta corte da Turquia, uma instituição dominada por figuras islamista-políticas e nacionalistas leais ao governo.

A Turquia só tomou uma providência depois que agentes brasileiros da INTERPOL informaram seus colegas turcos sobre o local exato onde se acreditava que ele estivesse hospedado com a namorada — fatos que a polícia e a inteligência turcas já conheciam, mas sobre os quais haviam feito vista grossa até então.

Trecho da decisão do Supremo Tribunal de Apelações da Turquia que, em março de 2021, reverteu a decisão do tribunal de instância inferior que havia autorizado a extradição de Waleed Issa Ahmad Khamees.

O que se seguiu foi um processo de extradição que expôs falhas marcantes na forma como a Turquia lida com criminosos procurados internacionalmente. Khamees inicialmente evitou a prisão para fins de extradição, contestou repetidamente sua identidade e apresentou relatos contraditórios sobre sua nacionalidade e histórico político. Seu caso foi devolvido duas vezes pelo Supremo Tribunal de Apelações (Yargıtay), a mais alta corte de apelação da Turquia, atrasando substancialmente sua transferência ao Brasil.

Os poderosos parceiros locais de Khamees se mobilizaram para garantir sua soltura, recorrendo a favores de juízes e promotores e buscando adiar o processo de extradição. Seu destino final permanece incerto. Embora uma reportagem da mídia local tenha afirmado que ele foi entregue a agentes brasileiros no Aeroporto de Istambul em 31 de outubro de 2023, o Tribunal Constitucional da Turquia — onde Khamees havia registrado uma queixa alegando violação de seus direitos fundamentais — declarou, em 24 de janeiro de 2024, que os registros governamentais não continham nenhuma informação que indicasse que ele havia sido extraditado ou libertado da prisão preventiva.

Independentemente do desfecho final, seu caso demonstrou com que facilidade um traficante internacional de drogas condenado conseguiu estabelecer uma presença comercial e residencial com aparência de legitimidade na Turquia, e como as autoridades turcas permitiram que ele operasse mesmo tendo conhecimento de seu histórico criminal documentado e de seu passado conturbado.

Khamees já era bem conhecido das autoridades brasileiras muito antes de aparecer na Turquia como o suposto cidadão sérvio Robert Sekeres. Registros de tribunais federais brasileiros mostram que ele foi condenado a nove anos de prisão por um tribunal federal de Fortaleza por tráfico internacional de drogas. A condenação decorreu de uma tentativa, em julho de 1992, de enviar aproximadamente 600 quilos de cocaína do Brasil para a Europa.

Material investigativo brasileiro relacionou esse carregamento a uma rede que envolvia figuras da ‘Ndrangheta italiana, incluindo Rocco Morabito e Francesco Sculli. Uma decisão judicial brasileira posterior afirmou que Morabito havia sido recebido no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, por Khamees em abril de 1992, e levado a uma residência associada a ele. Investigadores descreveram Khamees como parte da infraestrutura usada para transportar cocaína sul-americana para a Itália.

Em junho de 2004, a Polícia Federal brasileira prendeu Khamees no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, quando ele se preparava para embarcar em um voo para São Paulo. Ele portava documentos falsos em nome de Rogério Cury Mattar.

Passaporte jordaniano e cartões de residência brasileiros encontrados na posse de Waleed Issa Ahmad Khamees durante uma busca policial na Turquia.

Khamees estava sendo investigado, na época, junto com outros cidadãos jordanianos, por suposta lavagem de recursos provenientes do tráfico internacional de entorpecentes. Buscas em um apartamento em Porto Alegre e em duas propriedades rurais em Eldorado do Sul resultaram na apreensão de joias e grandes quantias em reais, dólares e euros. Contas bancárias foram bloqueadas, enquanto outros homens detidos durante a operação foram acusados de posse ilegal de armas de fogo.

No momento de sua prisão, Khamees também era descrito como foragido da pena de nove anos por tráfico de drogas imposta em Fortaleza. Os processos brasileiros relacionados à investigação mencionavam veículos apreendidos, moeda estrangeira e imóveis, além de suspeita de lavagem de dinheiro, uso de documentos falsos, posse ilegal de armas e participação em organização criminosa.

A investigação brasileira posterior o retratou como muito mais do que um participante marginal. Registros judiciais descreveram Khamees, também conhecido como “Velho” ou “Rogério”, como líder de um núcleo de tráfico que coordenava diversos operadores. A polícia brasileira o considerava um traficante internacional veterano, com ligações a figuras envolvidas em rotas de drogas pelas regiões sul e sudeste do Brasil.

Investigadores brasileiros e europeus também o identificaram como intermediário entre fornecedores sul-americanos de cocaína, o Primeiro Comando da Capital (PCC) — organização criminosa brasileira — e grupos do crime organizado italiano e balcânico.

Uma investigação internacional publicada pela empresa jornalística brasileira Universo Online (UOL), pelo Investigative Reporting Project Italy (IRPI) e pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project descreveu Khamees como associado de longa data do traficante da ‘Ndrangheta Rocco Morabito. Segundo a investigação, o relacionamento entre os dois remonta ao final dos anos 1980 e início dos anos 1990, período em que teriam ajudado a organizar carregamentos de cocaína do Brasil para a Itália e a lavar os recursos por meio de canais financeiros europeus.

Registros oficiais do Diário Oficial da Justiça Federal (TRF3) do Brasil mostram que Waleed Issa Khmayis foi indiciado em 25 de outubro de 2017, com base na legislação brasileira sobre organização criminosa, no âmbito da investigação da Operação Brabo. O tribunal posteriormente emitiu um edital público depois que as autoridades não conseguiram localizá-lo nos endereços constantes do processo.

Uma nova investigação brasileira resultou em um mandado de prisão preventiva contra Khamees em 2017. Registros judiciais brasileiros afirmaram que investigadores haviam detectado seus contatos com Miroslav Jevtic, que supostamente usava identidades falsas, e com o traficante italiano Vincenzo Macrì.

Macrì, suposta figura sênior da ‘Ndrangheta, foi preso no Aeroporto de Guarulhos em junho de 2017, viajando sob identidade falsa. Investigadores brasileiros alegaram que conversas interceptadas e fotografias mostravam Khamees tentando providenciar assistência jurídica e resolver a situação de Macrì após sua prisão.

Segundo o material de extradição posteriormente analisado na Turquia, promotores brasileiros apresentaram uma denúncia criminal contra Khamees em 25 de outubro de 2017, seguida por um mandado de prisão preventiva em 22 de novembro. A INTERPOL emitiu, na sequência, a Notificação Vermelha A-29/1-2018, que o descrevia como ligado a grupos criminosos na Itália e envolvido em uma organização dedicada ao tráfico internacional de drogas.

Uma segunda notificação, A-4824/5-2020, informava que Khamees havia sido condenado em 23 de agosto de 2019 por tráfico de drogas e organização criminosa, recebendo pena de 19 anos e seis dias de prisão. A notificação afirmava que o caso envolvia a posse ou o fornecimento de 545 quilos de cocaína destinados ao tráfico.

O material judicial brasileiro o retratou como um dos principais fornecedores de cocaína do país. Os tribunais brasileiros rejeitaram tentativas de suspender sua ordem de prisão, ressaltando que ele era foragido desde 2017 e havia demonstrado capacidade de burlar a aplicação da lei por meio de identidades falsas e conexões internacionais.

Enquanto as autoridades brasileiras o procuravam, Khamees se mudou para a Turquia usando documentos emitidos em nome de Robert Sekeres. O passaporte o apresentava como cidadão sérvio. Sob essa identidade, ele obteve uma autorização de residência turca de curto prazo, providenciou um endereço e se tornou gerente e proprietário de uma empresa turca.

Registros corporativos analisados pelo Nordic Monitor mostram que Khamees, usando a identidade falsa Robert Sekeres, constituiu uma empresa sob o nome de Jakarta Export Tekstil Gayrimenkul Danışmanlığı Limited Şirketi em dezembro de 2019, registrando-a em uma unidade comercial no sofisticado distrito de negócios de Maslak, em Istambul, no Nazmi Akbacı Ticaret Merkezi, nº 5/59.

A agência estatal turca de notícias Anadolu omitiu o fato de que as autoridades brasileiras haviam fornecido a localização de Khamees, alegando, em vez disso, que a polícia turca havia rastreado seu paradeiro na Turquia de forma independente.

A empresa, com capital de 20 mil liras turcas, recebeu o número de identificação fiscal 4830954643 e foi formalmente autorizada a atuar em uma ampla gama de atividades imobiliárias, de gestão de propriedades, construção e comércio — setores abrangentes o suficiente para conferir ao proprietário um perfil comercial aparentemente legítimo. Não havia registro de qualquer atividade no registro comercial após esse aviso inicial de constituição.

Documentos apresentados posteriormente pela defesa de Khamees incluíam suas informações de residência turca, a autorização de residência de curto prazo, registros corporativos que mostravam sua administração da empresa e contratos de aluguel assinados tanto pessoalmente quanto em nome da firma.

O fato de que Khamees conseguiu obter residência turca e constituir uma empresa sob identidade falsa levanta sérias questões sobre como ele conseguiu contornar os sistemas de imigração e registro corporativo do país. Os procedimentos de residência e cidadania na Turquia normalmente envolvem verificações de antecedentes por órgãos policiais e de inteligência que, em princípio, deveriam ter levantado sinais de alerta. Sua aparente capacidade de superar essas salvaguardas sugere sérias falhas institucionais ou a assistência de indivíduos bem relacionados, capazes de ajudá-lo a contornar tais obstáculos.

Também é digno de nota que Khamees já era alvo de uma Notificação Vermelha da INTERPOL quando a empresa foi constituída, e ainda assim sua identidade e suas impressões digitais aparentemente não foram cruzadas com o sistema internacional de alertas. Essa falha certamente levanta questões adicionais sobre se ele driblou o sistema por meio de corrupção, proteção oficial ou outras formas de assistência de alto nível dentro da Turquia.

Nos procedimentos de extradição, não há indício de que as autoridades turcas o tenham identificado de forma independente ou demonstrado interesse em monitorar suas atividades. Em vez disso, em 17 de julho de 2020, o Escritório Central Nacional da INTERPOL no Brasil informou à Turquia que Khamees, usando seu passaporte sérvio sob o nome de Sekeres, provavelmente passaria o fim de semana com sua namorada estrangeira em Marmaris, um popular destino turístico no sudoeste da Turquia. O Brasil pediu à Turquia que o prendesse ou, ao menos, confirmasse sua presença, para que os procedimentos de extradição pudessem ser iniciados.

Nazmi Akbacı Ticaret Merkezi, em Istambul, endereço comercial registrado da empresa constituída por Khamees na Turquia. (Imagem do Google Street View)

Embora as autoridades turcas não tenham tomado nenhuma ação significativa contra Khamees até que a inteligência brasileira localizasse com precisão sua posição e solicitasse formalmente sua detenção temporária para fins de extradição, a agência estatal turca de notícias Anadolu apresentou uma narrativa diferente. Em uma reportagem publicada quatro dias após a operação em Istambul, a Anadolu afirmou que a polícia antinarcóticos turca havia identificado o paradeiro de Khamees por conta própria, omitindo qualquer referência à inteligência fornecida pelo Brasil. A discrepância sugere um esforço das autoridades turcas para apresentar a prisão como resultado de seu próprio trabalho investigativo, ocultando o papel decisivo desempenhado pelas autoridades brasileiras na localização do foragido.

A polícia turca revistou sua casa e seu veículo em 22 de julho de 2020. Khamees apresentou o passaporte sérvio e o documento de residência turco emitido sob a identidade falsa. Os policiais também recuperaram documentos adicionais em nome do mesmo alias. A polícia encontrou documentos de identidade ligados ao Brasil, à Jordânia, à Palestina e à Sérvia em sua posse. Os registros reforçaram a conclusão de que Khamees tinha ampla experiência na construção de identidades alternativas e no trânsito entre jurisdições.

Khamees continuou a insistir que era Robert Sekeres, um cidadão sérvio. Ele alegou ter visitado o Brasil apenas uma vez, oito anos antes, ter ficado por cerca de dez dias e não saber nada sobre as Notificações Vermelhas. Suas impressões digitais, no entanto, correspondiam às anexadas às notificações da INTERPOL.

A Procuradoria-Geral de Istambul solicitou a detenção de Khamees tanto por falsificação de documentos quanto em razão do pedido de extradição brasileiro. Mas, curiosamente, o 7º Tribunal Criminal de Paz de Istambul ordenou sua prisão pela acusação de falsificação, mas rejeitou a detenção temporária para fins de extradição. O juiz concluiu que o material brasileiro ainda não apresentava provas concretas que estabelecessem forte suspeita de tráfico de drogas. Ele foi, em vez disso, colocado sob supervisão judicial e proibido de deixar a Turquia.

O 10º Tribunal Criminal Superior de Istambul inicialmente manteve essa postura, rejeitando um novo pedido de detenção no âmbito do processo de extradição. Uma objeção apresentada pela promotoria foi rejeitada pelo 11º Tribunal Criminal Superior de Istambul. Vale notar que numerosos juízes e promotores que atuam nos tribunais de Istambul têm, ao longo dos anos, se visto envolvidos em alegações de corrupção, suborno e abuso de autoridade ligadas a figuras do crime organizado.

Somente em 4 de setembro de 2020 o 10º Tribunal Criminal Superior decidiu que o pedido do Brasil era admissível e ordenou a detenção de Khamees para fins de extradição. O tribunal concluiu que suas impressões digitais correspondiam às do jordaniano procurado internacionalmente, e que sua insistência em afirmar ser outra pessoa tinha o propósito de obstruir seu retorno ao Brasil.

Waleed Issa Ahmad Khamees, 65 anos, cujo sobrenome aparece nos registros judiciais brasileiros sob diversas variantes, incluindo Khmayis, Khamayis e Khamays, instalou-se na Turquia usando o alias sérvio Robert Sekeres.

Durante a audiência, Khamees teria dito ao tribunal que queria permanecer na Turquia, que havia vindo para trabalhar e que era muçulmano. Ele foi transferido para a Prisão de Segurança Máxima Maltepe nº 3.

Khamees e seus advogados adotaram diversas linhas de defesa mutuamente inconsistentes ao longo do processo. O advogado inicialmente sustentou que seu cliente era Robert Sekeres, um muçulmano do Kosovo que havia vivido na Turquia por anos, gerado empregos e mantido um endereço permanente.

Em outra parte da mesma defesa, no entanto, ele descreveu Khamees como um muçulmano palestino que havia participado da luta palestina pela independência como membro do Exército de Libertação da Palestina.

O próprio Khamees mais tarde abandonou a alegação de que havia passado apenas dez dias no Brasil. Durante uma audiência realizada em 13 de julho de 2021, ele disse ao tribunal turco que era de origem palestina, havia se mudado para a Jordânia após a morte do pai, depois foi para a Itália e foi deportado de lá em 1987. Em seguida, admitiu ter se mudado para o Brasil, onde se casou e teve três filhos.

Ele alegou que o Brasil pretendia transferi-lo para Israel por causa de sua origem palestina e de suas atividades políticas. Seu advogado alegou de forma semelhante que ele já havia sido preso na Jordânia por ações dirigidas contra Israel.

O tribunal de Istambul rejeitou esses argumentos, ressaltando que Khamees havia apresentado relatos mutáveis e contraditórios, e que não havia evidências robustas de que ele seria perseguido ou maltratado no Brasil em razão de sua etnia, religião, nacionalidade ou opiniões políticas.

À medida que o caso de Khamees avançava, supostamente negociações intensas ocorriam em círculos judiciais. Em 8 de março de 2021, a 10ª Câmara Criminal do Supremo Tribunal de Apelações da Turquia reverteu a decisão do tribunal de Istambul. A rapidez com que a alta corte tratou o caso é particularmente digna de nota. Recursos perante o tribunal costumam levar tempo considerável devido ao enorme acúmulo de processos amealhados ao longo dos anos. Ainda assim, o caso de Khamees foi analisado e decidido em cerca de cinco meses — um desfecho incomumente rápido para a mais alta corte de apelação da Turquia, o que levanta questões adicionais sobre se seu caso recebeu tratamento preferencial.

A câmara se concentrou em uma questão técnica e decidiu que o processo não continha uma tradução juramentada para o turco da condenação brasileira, nem evidências suficientemente detalhadas explicando a ligação de Khamees com os delitos. Também questionou se a pena de 19 anos havia sido imposta à revelia e se o Brasil garantiria um novo julgamento caso ele tivesse sido condenado sem apresentar defesa.

A decisão forçou o processo de extradição a retornar ao tribunal de instância inferior e exigiu correspondência adicional com as autoridades brasileiras, atrasando ainda mais a extradição. Depois que o Brasil forneceu mais informações, o tribunal de Istambul voltou a aprovar a extradição, tanto por tráfico de drogas quanto por participação em organização criminosa, em 21 de setembro de 2021.

A alta corte interveio pela segunda vez em 27 de dezembro de 2021. Concluiu que o material brasileiro mostrava que a pena de 19 anos havia sido imposta à revelia de Khamees, e que o Brasil não havia garantido claramente um novo julgamento com pleno direito de defesa. A câmara, portanto, reverteu novamente a aprovação da extradição, ao mesmo tempo em que voltou a recusar sua soltura.

Isso é altamente incomum e levanta questões sobre até que ponto os contatos locais turcos de Khamees conseguiram exercer influência nas mais altas cortes de apelação da Turquia, cujo judiciário há muito enfrenta alegações de interferência política, favoritismo e corrupção.

Em 20 de outubro de 2022, o 10º Tribunal Criminal Superior de Istambul decidiu que Khamees poderia ser extraditado pela acusação de organização criminosa, mas não pela de tráfico de drogas, já que o Brasil não havia fornecido a garantia exigida em relação ao julgamento conduzido à sua revelia. O Supremo Tribunal de Apelações manteve essa decisão em 11 de abril de 2023.

A parte mais preocupante do caso Khamees não é o fato de os tribunais turcos terem examinado se o Brasil havia respeitado seus direitos de defesa. Essa revisão é exigida em qualquer sistema legal de extradição. O escândalo mais profundo está em tudo o que aconteceu antes de sua prisão.

Um homem com extenso histórico criminal no Brasil, casos anteriores de falsificação de documentos e alertas internacionais ativos conseguiu entrar na Turquia, obter residência legal e registrar uma empresa sob identidade falsa. Nenhuma instituição turca o sinalizou durante o processamento de imigração, a emissão de sua autorização de residência ou a constituição de sua empresa.

Mesmo após sua prisão, o pedido inicial de detenção para extradição foi rejeitado, apesar do passaporte falso e da correspondência das impressões digitais. Seus relatos mutáveis — sérvio, kosovar, jordaniano e palestino — não impediram uma complexa campanha de defesa que adiou repetidamente sua transferência.

O caso de Khamees demonstra que o governo Erdoğan permitiu que ele construísse uma vida na Turquia, e que o processo judicial lhe concedeu anos de proteção processual depois que o Brasil expôs sua presença.

Se a INTERPOL brasileira não tivesse informado à Turquia exatamente onde encontrá-lo em julho de 2020, Khamees poderia ter continuado a operar sua empresa em Istambul e a viver sob uma nova identidade, já que o governo turco não tinha interesse em persegui-lo.

O caso, portanto, oferece mais um exemplo da ascensão da Turquia como um ambiente atraente para figuras do crime organizado procuradas internacionalmente: um país onde documentos estrangeiros falsos puderam ser convertidos em direitos de residência, posição comercial e um caminho rumo a uma identidade legal mais permanente antes que autoridades estrangeiras intervissem.

Fonte: International cocaine trafficker wanted by Brazil built a business in Turkey – Nordic Monitor. Autor: Abdullah Bozkurt/Estocolmo

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