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Alemanha pressiona mesquitas financiadas pelo governo turco a romper com discurso radical

Alemanha pressiona mesquitas financiadas pelo governo turco a romper com discurso radical
novembro 18
17:46 2025

O Ministério do Interior da Alemanha pediu formalmente que a União Turco-Islâmica para Assuntos Religiosos (DITIB), braço alemão da Presidência de Assuntos Religiosos da Turquia (Diyanet), se distancie de forma clara de discursos extremistas. A medida reflete o crescente incômodo de Berlim com redes religiosas ligadas a Ancara que continuam a exercer influência sobre comunidades muçulmanas no país.

Um porta-voz do ministério, em declaração ao jornal Die Welt, afirmou que o governo alemão espera “que todas as organizações que cooperam com as autoridades federais se distanciem claramente de estruturas ou indivíduos que disseminem narrativas antissemitas ou persigam objetivos islamistas”.

A exigência vem na esteira dos desdobramentos de uma conferência de estudiosos islâmicos realizada em Istambul em 22 de agosto, da qual participou o principal líder religioso da Turquia, Ali Erbas, chefe da Diyanet. Ao final do encontro, os participantes aprovaram uma declaração que expressava apoio à luta armada do Hamas contra Israel e conclamava a uma “jihad global”. Autoridades alemãs consideraram esse posicionamento profundamente problemático, sobretudo em razão da dependência estrutural e de pessoal da DITIB em relação à Diyanet turca.

Em seu discurso na conferência em Istambul, Erbas descreveu a questão palestina como “um assunto de fé, moralidade e consciência”, acrescentando: “Sabemos que a paz não virá ao mundo enquanto a paz não vier à Palestina. Devemos libertar essa antiga geografia dos opressores que nela se agarram como carrapatos e a infectam como micróbios. Por isso, todos os muçulmanos, os Estados muçulmanos e as pessoas de consciência devem se unir, tomar decisões sérias e impor sanções para deter os opressores”.

Erbas, chefe da Diyanet, participou da conferência de 22 de agosto sobre Gaza ao lado de membros da União Internacional de Eruditos Muçulmanos, evento que despertou críticas na Alemanha. Ele também afirmou que os oprimidos em breve alcançarão a vitória, enquanto os opressores inevitavelmente enfrentarão o castigo que merecem.

Essa retórica aumentou as preocupações na Alemanha quanto à compatibilidade da DITIB — uma importante entidade guarda-chuva que representa centenas de mesquitas no país — com os princípios democráticos e constitucionais alemães.

Como parte de sua estratégia para reduzir a influência estrangeira sobre instituições religiosas locais, o governo alemão tem adotado a formação doméstica de imãs, em vez de depender de clérigos enviados pela Turquia. Esse compromisso consta do acordo de coalizão assinado pelos partidos que compõem o atual governo, o qual estabelece que a cooperação com associações religiosas na Alemanha dependerá do grau de interferência ou direção por parte de governos estrangeiros.

Segundo o Die Welt, o Ministério do Interior já destinou, neste ano, 465 mil euros para apoiar programas de formação de imãs em cooperação com o Islamkolleg Deutschland, em Osnabruck. O objetivo é substituir o sistema de longa data no qual a Diyanet nomeava e remunerava os clérigos em atuação na Alemanha.

O ministério enfatizou que o plano de encerrar o envio de imãs do exterior continua em vigor. “A continuidade de iniciativas como o programa de formação de imãs dependerá da forma como a DITIB se posicionar e de quão bem-sucedido for o avanço desse processo”, afirmou.

Apesar dos esforços da Alemanha, a Diyanet continua a expandir seus programas internacionais. A instituição vem estimulando o recrutamento de turcos que já são cidadãos de países europeus, incentivando que recebam formação teológica na Turquia antes de serem enviados como imãs para o exterior.

Para levar essa iniciativa adiante, a Diyanet reservou 608 milhões de liras turcas, cerca de 17,3 milhões de dólares. Mais de mil estudantes da Europa e da América do Norte já passaram por estudos na Turquia, e muitos hoje servem em instituições ligadas à Diyanet no exterior.

Em 2025, por exemplo, a Diyanet lançou um novo programa de formação pelo qual 75 graduados de faculdades de teologia turcas viajarão todos os anos para a Alemanha a fim de participar de um curso de dois anos na Academia da DITIB em Dahlem, na Renânia do Norte-Vestfália. Ao concluírem a formação, esses indivíduos serão nomeados imãs em mesquitas vinculadas à DITIB, com obrigação contratual de servir por pelo menos dez anos. Aqueles que não cumprirem o compromisso estarão sujeitos a sanções financeiras.

Autoridades alemãs vêm reiterando sua preocupação de que imãs nomeados e pagos pelo governo turco estejam mal integrados à sociedade alemã. Muitos não têm domínio suficiente da língua alemã e permanecem politicamente alinhados com Ancara, o que levanta dúvidas sobre sua capacidade de atuar como guias espirituais em um ambiente multicultural.

Serviços de inteligência europeus há muito suspeitam que a DITIB e outras organizações ligadas à Diyanet sejam usadas para fins que vão além da orientação religiosa. Entre eles estariam a vigilância de comunidades da diáspora, a disseminação de propaganda política e a coleta de informações, sobretudo sobre opositores do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Desde 2020, a DITIB vem formando seus próprios imãs em uma academia criada pela entidade na Alemanha.

Vários governos europeus, incluindo Alemanha e Áustria, abriram investigações sobre mesquitas e centros culturais da Diyanet devido a acusações de que clérigos estariam espionando críticos do governo turco.

O desconforto da Alemanha com a DITIB é agravado por preocupações mais amplas com a influência política turca por meio de organizações da diáspora. Um relatório de 380 páginas do Ministério do Interior, publicado em 2023, destacou o papel do movimento nacionalista Lobos Cinzentos (Ulkuculer), que mantém laços estreitos com o Partido do Movimento Nacionalista (MHP), aliado de Erdogan.

O documento apontou para a cooperação, em solo alemão, entre os Ulkuculer e o governante Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), bem como conexões com a União Internacional de Democratas (UID), um grupo de lobby ligado ao AKP e ativo no exterior. A DITIB e a Comunidade Islâmica Milli Gorus (IGMG) foram citadas como importantes instituições religiosas inseridas em redes sobrepostas.

Criada originalmente como órgão estatal secular para combater o radicalismo na Turquia, a Diyanet passou por uma transformação profunda ao longo dos 23 anos de governo de Erdogan. A instituição tem se convertido, cada vez mais, em instrumento de promoção de um islamismo político alinhado à ideologia da Irmandade Muçulmana, tanto dentro quanto fora do país.

Desde a tentativa de golpe de 2016, o governo turco demitiu cerca de 3.000 funcionários da Diyanet, substituindo-os por pessoas leais à visão islamista política de Erdogan.

Fonte: Germany pressures Turkish government-funded mosques to break with radical messaging – Nordic Monitor

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