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A ascensão de Erdogan como Chefe de Mídia

A ascensão de Erdogan como Chefe de Mídia
julho 05
17:27 2016

Um pouco mais de um ano atrás, o Presidente Recep Tayyip Erdogan usou um memorável argumento para rebater o criticismo de sua inclinação autoritária e esforços de amordaçar a mídia crítica. “Se eu fosse um ditador”, disse ele, “vocês não conseguiriam falar tudo isso”.

Dois dias após fazer essas afirmações, as eleições gerais de 7 de junho de 2015 produziram um grande choque para Erdogan pois o seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) perdeu sua maioria parlamentar pela primeira vez desde que veio ao poder em 2002. Erdogan culpou a mídia, e, forçando os limites da lei, forçou uma nova eleição em 1º de novembro.

Na preparação para as urnas em novembro, apoiadores do AKP com paus e pedras atacaram o jornal Hurriyet em Istambul em 7 de setembro. A policia decidiu não intervir conforme a multidão – liderada pelo recém eleito deputado do AKP Abdurrahim Boynukalin, o chefe dos divisões de jovens do partido – estilhaçaram a entrada e janelas de vidro do maior grupo de mídia da Turquia. Menos de 24 horas depois, o prédio sofreu um segundo ataque, junto com os escritórios do Hurriyet em Ancara.

Boynukalin estava ausente do cédula do AKP nas eleições de 1º de novembro, mas pouco tempo depois ele conseguiu sua recompensa, ternando-se vice ministro dos esportes e da juventude. Os suspeitos do ataque, enquanto isso, passaram por julgamento – livres de detenção pré-julgamento – e acabaram sendo inocentados.

As ondas de choque dos ataques mal tinham se dissipado quando um dos apresentadores de TV mais populares da Turquia, Ahmet Hakan Coskun, foi espancado por apoiadores do AKP no lado de fora de sua casa por volta da meia noite em 30 de setembro. Os agressores, que haviam seguido Coskun da estação de TV até sua casa, também foram soltos pelos juízes.

A ofensiva teve uma nova reviravolta em outubro quando os “tribunais projeto” — os assim chamados juizados criminais de paz – entraram em cena. Citando uma investigação relacionada ao terrorismo contra a comunidade Gülen, os juízes colocaram o quarto maior grupo de mídia da Turquia, o Ipek, sob tutela. Pela primeira vez na história da Turquia, a polícia de choque invadiu os escritórios de um órgão de mídia arrombando o portão. Os canais Bugun TV e Kanalturk do Ipek, que estavam transmitindo a invasão ao vivo, foram tirados do ar. O verdadeiro propósito dos tutores – todos eles amigos do AKP – veio à luz assim que fecharam os dois canais de TV e seus dois jornais irmãos sob a justificativa de que eram economicamente inviáveis.

A repressão da mídia se intensificou ainda mais depois que o AKP restaurou sua maioria parlamentar nas eleições de 1º de novembro. O editor-chefe do jornal Cumhuriyet Can Dundar e o representante de Ancara Erdem Gul ficaram atrás das grades em 27 de novembro por fazerem uma reportagem dizendo que a inteligêcia turca tinha enviado armas para islamistas radicais na Síria. Apesar de terem sido soltos três meses depois, eles acabaram recebendo sentenças por revelarem segredos de estado.

No começo de março, o Zaman, o jornal de maior vendagem da Turquia e o carro-chefe da mídia Gulenista, acabou sob tutela também, junto com outros órgãos de mídia pertencentes pelo mesmo grupo.

Em maio, outro incidente sem precendentes sucedeu. Dundar do Cumhuriyet virou alvo de um ataque a mão armada no lado de fora do tribunal onde estava sendo julgado, escapando ileso. O atirador, que chamou o jornalista de “traidor”, foi detido, enquanto que seus supostos cúmplices ficaram livres.

Em quanto isso, a TV IMC, com inclinações socialistas e independente, foi retirada do satélite nacional sob ordens de um promotor que investigava o canal por ligações com o terrorismo. A TV Can Erzincan, outro canal pequeno que ousa bater de frente com Erdogan, está agora sob ameaça de encontrar o mesmo destino.

Um punhado de outras estações de TV e jornais que permanecem críticos ao governo são frequentemente o alvo de inspetores do Ministérios das Finanças e batidas da polícia, enquanto que jornalistas processados por Erdogan são visitantes regulares dos tribunais.

De acordo com Serdar Sement, um analista da Consultoria de Informática S, uma empresa de pesquisa que emite relatórios anuais sobre a condição da mídia na Turquia, 70% da mídia é agora um porta-voz do governo. “O controle de Erdogan da mídia tem expandido constantemente desde 2008”, contou Sement ao Al-Monitor, relembrando que dois dos três maiores grupos de mídia da Turquia, em liquidação estatal devido a complicações financeiras, foram vendidos a amigos de Erdogan já em 2008 e 2013. Com a apreensão da mídia afiliada a Gülen pelos tutores, o “controle governamental da mídia impressa alcançou um ponto máximo”, disse ele. “Incluindo o grupo Demiroren, que é controlado indiretamente, as publicações pró-governo respondem por 70% da circulação total de jornais hoje em dia”.

Na mídia visual, que acredita-se ser mais influente devido à preferência dos turcos por assistir mais do que ler, a pressão do governo escalou significantemente desde as eleições de junho de 2015, observou Sement. “Os ataques contra o grupo Dogan [dono do Hurriyet], o ataque contra o popular apresentador de TV do lado de fora de sua casa e a remoção dos canais supostamente ligados a Gülen dos satélites e plataformas digitais são todos parte da mesma estratégia”, disse ele. “Ninguém que o governo não goste pode aparecer na tela na grande mídia hoje em dia. Canais de TV que permitem partidos de oposição e grupos civis falarem podem ser contados nos dedos de uma mão. E estão lutando para sobreviverem nas pinças dos tribunais e penas de impostos”.

De acordo com Sement, 85% dos canais de notícias da Turquia estão atualmente sob controle do governo, novamente um ponto máximo.

Quando o assunto são as agências de notícias, a Turquia possui cinco nacionais, a maior delas – a agência de notícias Anatolia – é uma instituição pública comandada diretamente pelo governo. Entre as privadas, a agência de notícias Ihlas é pró-governo, enquanto que a Cihan foi colocada sob tutela junto com o Zaman. Assim, o controle governamental desse setor alcançou 60%. Um detalhe muito importante aqui é que a Cihan contumava ser a única agência que não a Anatólia capaz de fornecer contagem de votos em tempo real para locais de votação por todo o país durante as eleições. Com a Cihan agora sob controle do governo, um importante meio de monitoramento independente e referência cruzada se foi, suscitando preocupações quanto as eleições futuras. Estudos independentes já encontraram no ano passado sinais de atividade eleitoral fraudulenta que favorecia o AKP.

Ceren Sozeri, um estudioso de comunicação em massa da Universidade Galatasaray de Istambul, acredita que o governo está determinado a amordaçar completamente toda a mídia crítica. “Existe um punhado de jornais e canais de TV independentes que ainda restam, e agora estão tentando destruí-los usando o judiciário”, contou Sozeri ao Al-Monitor. “As penas atiradas [pela fiscalização da mídia], a retenção de anúncios públicos [para a mídia crítica], a prisão de jornalistas, os julgamentos por insulto, os pedidos de compensação e o término de transmissões via satélite não são o suficiente para eles”.

De acordo com o estudioso, a remoção dos canais de TV do satélite nacional foram em grande parte ilegais, incluinto a da TV IMC, que ela descreveu como um “escândalo”. O governo, disse ela, “continuará a usar esses métodos até que a última voz crítica seja silenciada”.

Desde que Erdogan “garantiu” que não era um ditador no ano passado, seus leais juízes e promotores fecharam 15 canais de TV, cinco jornais, uma estação de rádio e uma revista de notícias por “espalharem propaganda terrorista”. Com jornalistas pró-governo já anunciando “furos jornalísticos” de que três outros canais de notícias estão marcados para serem fechados, não dá para evitar de se perguntar: “E se Erdogan fosse um ditador”?

Ufuk Sanli

Fonte: www.al-monitor.com

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