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O centenário do caos no Oriente Médio

O centenário do caos no Oriente Médio
janeiro 06
15:05 2016

As raízes dos problemas do Oriente Médio começaram a brotar em novembro de 1915

Em meio à Primeira Guerra Mundial e há exatamente cem anos, em novembro de 1915, o diplomata britânico Mark Sykes começou a negociar com o colega francês François Georges-Picot a partilha do Império Otomano.

Segundo o plano original, o Império Britânico ficaria com a Jordânia e a maior parte do Iraque, a França com a Síria, o norte do Iraque, o Líbano e parte da Turquia, a Rússia com a Armênia, a Itália com outra parte da Turquia e a Palestina seria destinada à criação de um lar judeu submetido a protetorado internacional. 

Com a revolução bolchevique, a Rússia não só caiu fora do Acordo Sykes-Picot, como o denunciou ao mundo, para a indignação de muitos dos árabes que, graças aos esforços de Thomas Edward Lawrence, o “Lawrence da Arábia”, lutavam ao lado dos britânicos com a expectativa de conquistar sua independência.

Mesmo assim, a vitória aliada acabou por implementá-lo no essencial. O renascimento nacionalista e republicano da Turquia no pós-Guerra frustrou a pretensão de estender a partilha aos territórios de população turca e armênia, mas Síria e Líbano passaram ao controle direto da França, e Iraque, Transjordânia e Palestina tornaram-se protetorados britânicos, esta última aberta à imigração sionista.

O colonialismo imposto ao coração do mundo árabe foi o primeiro passo para desmoralizar os setores reformistas da cultura islâmica, pois os únicos árabes a impor sua independência aos europeus foram os fundamentalistas wahabitas do Nejd, que expulsaram de Meca e da costa do Golfo os britânicos e seus colaboradores para fundar a Arábia Saudita, e o imame xiita do Iêmen do Norte. Só na Turquia, onde a independência foi reconquistada graças a um movimento laico e nacionalista, floresceu uma forma mais moderna de islamismo.

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Lawrence da Arábia, o agente secreto que cooptou os árabes para lutar ao lado de britânicos e franceses / AFP

Claro que não bastou apenas plantar a semente do caos, foi preciso regá-la e adubá-la. Também foi fundamental o golpe de 1921 no Irã para impor a dinastia Pahlavi em benefício da Anglo-Persian Oil Company (depois British Petroleum) com a colaboração do lobista Winston Churchill, que batalhou para garantir-lhe direitos exclusivos sobre o petróleo iraniano.

Depois veio a aliança de Franklin D. Roosevelt com o rei Ibn Saud em 1945, para garantir o acesso das petroleiras estadunidenses (atuais ExxonMobil e Texaco) ao petróleo saudita.

Em 1948, foi a vez do processo mal gerido pelos ingleses e pela ONU e traumático para os palestinos da formação e independência de Israel. Seguiram-se, em 1953, a conspiração da CIA para depor o primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mosaddegh  e, em 1956, a tentativa anglo-franco-israelense de tomar o Canal de Suez e derrubar Gamal Abdel Nasser.

A pressão conjunta de Nikita Krushev e Dwight Eisenhower frustrou essa última operação e encerrou a história dos imperialismos britânico e francês como forças independentes de Washington, mas os EUA não usaram sua hegemonia com sabedoria.

O apoio incondicional e irrestrito a Israel a partir da Guerra dos Seis Dias de 1967 e os esforços seguidos para enfraquecer e humilhar ou cooptar e manipular as lideranças nacionalistas árabes e a resistência palestina aumentaram o abismo entre Ocidente e Oriente Médio e fizeram as massas muçulmanas virarem as costas para os governos laicos e se voltarem cada vez mais para as mesquitas em busca de assistência social e sentido para a vida.

O Acordo de Camp David de 1978 permitiu ao Egito recuperar o Sinai e garantiu a Israel o controle de Gaza e segurança contra o vizinho árabe mais poderoso, mas foi percebido como traição por grande parte do mundo árabe e muçulmano. O atentado da Jihad Islâmica que matou Anuar Sadat em outubro de 1981 foi um primeiro aviso do que vinha pela frente.

Tanto instigar os mujaheddin afegãos contra o governo marxista de Cabul quanto jogar o regime baathista de Saddam Hussein contra a revolução islâmica do Irã em 1979 e 1980 resultaram em vantagens temporárias para os EUA e seus aliados europeus e sauditas, mas deram vitórias aos mulás sunitas e aiatolás xiitas e ampliaram seu prestígio ante o imperialismo ocidental.

A invasão de Israel ao Líbano de 1982 e a política de “Punho de Ferro” contra os palestinos de 1985 enfraqueceram a laica Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat, mas fizeram surgir e florescer os fundamentalistas do Hezbollah e do Hamas.

O colapso da União Soviética em 1990, seguido pela vitória do Talibã no Afeganistão, deu aos fundamentalistas a convicção de terem Alá ao seu lado. Juntamente com a dupla humilhação de Saddam Hussein, primeiro diante do Irã, depois ante os Estados Unidos e os sauditas quando tentou recuperar a economia e o prestígio com a anexação do Kuwait, foi um golpe de misericórdia no nacionalismo laico árabe. O Iraque não só foi derrotado, como mantido sob embargo e assédio por mais de uma década.

Reduziu-se à pobreza e à impotência o que fora o Estado laico mais moderno, próspero e bem armado do mundo árabe, enquanto o fim da Guerra Fria levava ao auge a prepotência do neoliberalismo e Thomas Friedman defendia, a sério, que dois países com lanchonetes McDonald’s jamais fariam guerra.

Mapa

A hegemonia ocidental embarcava no delírio do “fim da história” e dava por terminal e irrelevante a resistência a uma globalização neoliberal sem concessões, com a rendição da política ao poder do capital financeiro centralizado em Wall Street.

Enquanto isso, Osama bin Laden, ainda em 1993 adulado como um herói da guerra contra os soviéticos que “punha seu exército no caminho da paz” em uma famosa entrevista de Robert Fisk no The Independent, concebia a fantasia alternativa de um Califado capaz de expulsar as potências ocidentais do mundo muçulmano e uni-lo sob a hegemonia do fundamentalismo salafista de origem saudita.

O choque não das civilizações, mas desses dois programas políticos radicais explodiu em 11 de setembro de 2001 e impulsionou o projeto do “Império Americano” da equipe de George W. Bush, uma combinação de intervenção externa e vigilância interna antes inimaginável e desde então inexorável. Após uma operação multilateral e em tese cabível no Afeganistão, partiu-se para a aventura unilateral da invasão do Iraque em 2003, uma conquista pura e simples.

O atrevimento foi repudiado pela França e Alemanha e as maiores manifestações de todos os tempos tentaram impedi-la, em vão. Bush e Tony Blair pregaram e a mídia global repetiu que Saddam Hussein ameaçava o mundo ao preparar armas de destruição em massa e cooperar com o fundamentalismo. Duas mentiras conscientes e descaradas, com o propósito evidente de impor o controle anglo-americano sobre o Golfo Pérsico e suas reservas de petróleo.

Com o pretexto de se combater um movimento terrorista cujas raízes estavam em décadas de saques, injustiças e humilhações infligidas a povos muçulmanos, foram impostos ainda mais agravos e arbitrariedades – e a uma nação cuja relação com Bin Laden era nenhuma.

Como foi previsto pelos menos iludidos, o resultado seria mais terrorismo e violência. A resistência dos sunitas iraquianos à ocupação permitiu à Al-Qaeda espalhar seus tentáculos por onde nunca tivera influência e deu origem ao EI, mas, se fosse menos furiosa, Bush teria estendido a experiência ao Irã e à Síria, com resultados ainda mais nefastos.

Enquanto isso, o povo do Afeganistão, após muitas promessas de apoio e desenvolvimento, foi abandonado à miséria, violência e exploração, dando ao Taleban uma inestimável segunda chance.

Ao fim do governo Bush, o fracasso das intervenções no Iraque e no Afeganistão era evidente e isso foi decisivo para a vitória de Barack Obama. Entretanto, tanto ele quanto seus colaboradores tiraram do fiasco neoconservador as lições erradas.

Apostaram em alterar os métodos sem mudar as metas e a essência de sua política, confiando em formas tecnologicamente mais sofisticadas de vigilância e espionagem e em intervenções menos diretas com menos tropas do Pentágono e maior participação dos aliados sauditas e europeus.

Nada de mudar o relacionamento com o mundo árabe. Ante a pressão do lobby sionista nos EUA, Obama desistiu de pressionar Tel-Aviv e as “negociações de paz” foram mero pretexto para o “enviado” Tony Blair repetir Churchill e fazer fortuna para si e seus clientes com “consultorias” e vendas de armas aos líderes árabes.

A Primavera Árabe, que poderia ter sido ocasião de uma revisão séria de estratégias, foi tratada como oportunidade para enfraquecer a Rússia e impor regimes pró-ocidentais à Líbia e Síria com o pretexto de derrubar ditadores, embora todo respaldo fosse dado ao ditador militar Al-Sisi quando depôs o governo islâmico eleito democraticamente no Egito e mais ainda às repressivas monarquias da Península Arábica.

A lei do “Califado” de Al-Baghdadi é praticamente igual àquela da monarquia saudita do rei Salman, que neste ano decapitou ainda mais gente e por motivos igualmente arbitrários, além de também destruir tesouros arqueológicos em seu país e no Iêmen.

França também parece ter tirado a lição errada. Em vez de congratular-se por não ter embarcado na loucura do Iraque, talvez tenha lamentado perder a oportunidade de apoderar-se de uma fatia de seu petróleo e abrir mercados para sua indústria bélica.

Modernidades-laicas
Em sentido horário: Gamal Abdel Nasser, Mohammed Mossadegh, Saddam Hussein e Yasser Arafat

O fato é que, nos anos 2010, Nicolas Sarkozy e François Hollande portaram-se como os mais belicosos dos líderes ocidentais. A França instigou a guerra na Líbia e Síria e dificultou ao máximo o acordo nuclear com o Irã, tanto para agradar às monarquias do Golfo e ao Egito e vender-lhes mais armas quanto para conseguir concessões para suas petroleiras.

Se a política de intervenção direta de Bush e Blair levou os fundamentalistas ao Iraque, as intervenções indiretas e multilaterais de Obama, David Cameron e Hollande abriram as portas da Síria, do Iêmen, da Líbia, do Mali, da Nigéria e de grande parte da África à Al-Qaeda e a seu rebento ainda mais violento e perigoso, o EI.

Diretamente ou por meio de seus aliados sauditas e “rebeldes moderados”, financiaram e armaram forças fundamentalistas para depor Muammar Kaddafi e Bashar el-Assad, agravando e multiplicando os erros cometidos no Afeganistão desde a época de Ronald Reagan.

Hoje recusam a responsabilidade pelas consequências tanto quanto Bush e Blair. Inacreditavelmente, Hillary Clinton, responsável, como secretária de Estado, pela catastrófica intervenção na Líbia, insistiu em recente debate democrata em apresentá-la como um “sucesso” em contraste com a aventura iraquiana.

Na África, o arsenal líbio caiu nas mãos de fundamentalistas do próprio país ou imediações, como o Boko Haram da Nigéria. Na Síria, a Al-Qaeda (por sua filial local, Al-Nusra) e o EI recebem financiamento direto de vários países (40, segundo Vladimir Putin na reunião do G-20), principalmente monarquias árabes, e indiretos das próprias potências ocidentais.

A Al-Qaeda apodera-se de armas e recursos fornecidos aos “rebeldes moderados” a título de pedágio ou por meio de deserções. O EI, além de tomar os arsenais do incompetente exército armado e treinado pelos Estados Unidos no Iraque, vende petróleo extraído dos territórios controlados aos mesmos rebeldes, que obviamente pagam à vista com dólares do Ocidente.

O EI não se limitou a alimentar o sonho de um futuro Califado, implantou-o à sua maneira nos territórios que conseguiu controlar, gabando-se de liquidar a herança do Acordo Sykes-Picot e derrubar seus marcos fronteiriços. Levou a violência além dos limites considerados aceitáveis pela Al-Qaeda, não só contra os “infiéis”, mas ainda mais contra os muçulmanos de outras correntes, principalmente os xiitas.

Ao mesmo tempo que usa as armas e os meios de comunicação mais modernos com habilidade, leva o extremismo simbólico ao ponto de restaurar a escravidão, impor às mulheres véus fechados como jamais foram usados nessas regiões e dinamitar qualquer vestígio histórico de outras religiões.

Recruta milhares de jovens desiludidos com o Ocidente onde nasceram ou foram criados – alguns sequer descendentes de muçulmanos – para lutar por sua utopia fundamentalista. Apesar de tudo isso, Obama e seus aliados julgaram poder usá-los contra Assad, o governo xiita iraquiano e o Irã.

Há poucas semanas, ainda se multiplicavam análises e artigos para defender a tese de que o EI era apenas um problema local e menor do Oriente Médio. “A ameaça do ISIS não é nada comparada ao Irã”, garantia Netanyahu em julho. “Remover Assad é a prioridade na Síria”, insistia Hillary ainda em outubro. Houve quem comprasse a versão de Al-Baghdadi como aliado secreto de Assad e a sustentasse mesmo quando o primeiro tomou Palmira e outras bases vitais para o regime.

Quando a Rússia entrou na guerra para salvar Damasco do colapso iminente, foi acusada de usar a guerra ao EI (que de fato ela estendeu à Al-Nusra e outros fundamentalistas) como pretexto para atacar os famosos, mas irrelevantes, “rebeldes moderados” e na realidade fortalecer Al-Baghdadi.

Se o quadro mudou, foi em consequência da crise dos refugiados. A chegada de mais de 832 mil migrantes em 2015 (até 17 de novembro), expelidos na maioria pela guerra na Síria e no Iraque, cria problemas graves para os líderes europeus e abala os alicerces da União Europeia.

Grupos
O Estado Islâmico (foto), os "rebeldes sírios" da Al-Nusra e a monarquia da Arábia Saudita partilham a mesma ideologia e os mesmos métodos / AFP

Depois de muito resistir a atacar o EI por julgar que isso ajudaria Assad, Hollande finalmente se convenceu da necessidade de um acordo na Síria, e no fim de setembro começou a participar dos bombardeios ao Estado Islâmico, bem depois dos EUA, do Reino Unido e de seus aliados árabes.

Não foi só por isso ou por ressentimentos coloniais que seu país se tornou o alvo do primeiro grande ataque de Al-Baghdadi no Ocidente. A França tem a maior população muçulmana ocidental, na maior parte laica e na quase totalidade pacífica.

O EI prega com franqueza em suas publicações extinguir a “zona cinzenta” de convivência entre cristãos e muçulmanos no Ocidente e levar ao extremo os rancores e desconfianças existentes para dividir o mundo claramente entre dois campos, sem meio-termo. Para eles, os muçulmanos que vivem pacificamente no Ocidente e mais ainda aqueles que fogem de seu avanço para lá buscar refúgio são iludidos ou traidores.

Querem o fim da migração e a expulsão dos muçulmanos europeus e estadunidenses, para que não tenham alternativa a viver no “Califado” e lutar por ele. Não é difícil entender como, nesse aspecto, são aliados objetivos da direita xenófoba ocidental.

Há quem considere a propaganda do Estado Islâmico incompetente por inspirar horror em vez de atrair simpatia para sua causa. É ignorar que seu objetivo jamais foi ganhar elogios da mídia ocidental, e sim seduzir militantes furiosos e deflagrar uma guerra total sem alternativas ao extremismo.

Também há quem diga que o EI “repetiu o erro” da Al-Qaeda ao atacar o Ocidente. Mas erro de qual ponto de vista? Osama bin Laden está morto, mas o jihadismo é hoje muito mais poderoso do que era em 2001.

Sua maior arma não são os homens-bomba, as decapitações ou os atentados a aviões, mas a reação exagerada e indiscriminada aos muçulmanos que suas ações provocam nos políticos, na mídia e na opinião pública ocidentais.

Árabes têm razões acumuladas desde 1915 para animosidades com o Ocidente. Trata-se de levá-las ao extremo, e para isso contam com a colaboração de figuras como Marine Le Pen e Donald Trump.

Não se pode perder de vista que o discurso da “guerra das civilizações” é instrumental. Em ambos os lados, o objetivo é a hegemonia em seu próprio campo. Para evitar deformações de perspectiva, não custa lembrar que 82% a 97% das vítimas do terrorismo islâmico no mundo são muçulmanas, segundo relatório do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA.

Ao menos nesse país, o número de mortos pela violência social cotidiana é centenas de vezes superior ao das vítimas de terrorismo. E mesmo dentro da categoria do terror as vítimas de racistas brancos são duas vezes mais numerosas do que as de fundamentalistas islâmicos.

Isso não é dizer que o EI não possa ter cometido um erro de cálculo, mas não foi o de Bin Laden, e sim o de Adolf Hitler. Pode ter superestimado suas possibilidades ao atacar simultaneamente a Rússia e o Ocidente e abrir caminho a uma aliança capaz de varrê-lo do mapa como “Estado”, controlador de um território.

Mas isso não significará o fim do jihadismo se não houver uma mudança substancial nas atitudes do Ocidente. Organizações ainda mais extremistas e perigosas poderão surgir das cinzas desse “Califado”. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 877 de CartaCapital, com o título “Cem anos de preparação”

por Antonio Luiz M. C. Costa

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/

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