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Acabou liberdade de imprensa na Turquia

Acabou liberdade de imprensa na Turquia
março 07
13:50 2016

Hidayet Karaca: “A liberdade de imprensa está ameaçada e a democracia foi suspensa na Turquia”.

Roy Greenslade, The Guardian – quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015.

Hidayet Karaca, executivo de uma das principais redes de televisão turcas, está preso desde 14 de dezembro de 2014 sob acusações de liderar um grupo terrorista.

As acusações estão relacionadas à apresentação, cinco anos atrás, de um episódio de novela em um dos canais do grupo. Karaca, gerente geral do Grupo de Telecomunicação Samanyolu, foi detido juntamente com mais de vinte e quatro jornalistas experientes e executivos de mídia. A maioria dos quais foram liberados rapidamente.

Altos funcionários da União Europeia – incluindo a Chefe de Política Externa, Federica Mogherini – disseram que as detenções foram “contra os valores europeus”.

Agora, Karaca escreveu uma carta detrás das grades que foi gravada, veja o vídeo em inglês: www.theguardian.com

Aqui está a íntegra da carta:

“Meu nome é Hidayet Karaca. Estou escrevendo esta carta em minha cela na prisão, tentando alcançar o mundo livre.

Sou gerente geral de uma das principais redes nacionais de TV, chamada Samanyolu, que transmite 14 canais em turco, inglês, árabe e curdo, dezenas de estações de rádio e portais de notícias.

Sempre fomos fortes defensores e promotores dos direitos fundamentais, estado de direito e democracia e continuaremos a fazê-los em total concordância com as regras, regulamentos e leis.

Sou vítima de uma caça às bruxas que tem sido lançada contra a imprensa livre, independente e crítica na Turquia, porque o governo cada vez mais autoritário não gosta de criticismo ou da exposição de crimes cometidos dentro dos órgãos governamentais.

Qualquer jornalista que descubra a roupa suja de altos funcionários do governo é imediatamente rotulado como traidor e sujeito a um assassinato de caráter, abuso, perseguição e até mesmo processos legais sob acusações falsas, sem nenhuma evidência.

Está claro que o Presidente Recep Tayyip Erdoğan e seus aliados no governo declararam guerra contra a mídia independente, tendo como pano de fundo as enormes investigações de corrupção que incriminaram altos funcionários do governo em 17 e 25 de dezembro de 2013.

Desde então, o governo recorreu a todos os tipos de táticas de intimidação para amordaçar a mídia e livrar-se do escândalo de corrupção.

Primeiro, o governo tentou forçar a falência de nossa rede de transmissão, intimidando nossos anunciantes, o que teve certo impacto em nossas receitas. Depois, os órgãos reguladores, dominado por pessoas leais ao governo, ostensivamente, abusaram de seu poder ao impor penalidades financeiras em nossa rede e parar nossa programação, que cobre acontecimentos importantes.

Enquanto nós só tínhamos recebido uma ou duas multas do órgão regulador em 21 anos de história de transmissão até dezembro de 2013, desde então, começou a chover multas em nossa rede porque estávamos cobrindo os casos de corrupção. Ao todo, estamos enfrentando cerca de US$ 2 milhões em penalidades financeiras.

Ao mesmo tempo, a repressão e pressão, em geral, passou de ruim a pior, resultando em buscas em casas e escritórios de jornalistas e detenção de adolescentes por, supostamente, insultarem o presidente.

O governo passou leis antidemocráticas por meio de um Parlamento conivente, subordinando o Judiciário ao Executivo e criando tribunais especiais para processar – ou melhor, perseguir – críticos e oponentes.

Em 14 de dezembro de 2014, a polícia fez buscas em meios de comunicação e deteve dezenas de indivíduos, incluindo eu. O promotor, citando um episódio que foi ao ar cinco anos atrás como parte de uma série de TV que agora foi descontinuada, prendeu não somente a mim, mas também ao produtor, diretor e roteiristas da série, assim como um assistente que trabalhou apenas como estagiário em certo período.

Fomos acusados de “formar e liderar uma organização terrorista” com base naquele episódio, que apresentava a luta da Turquia contra grupos terroristas, incluindo a al-Qaeda. Toda a investigação, conforme a entendemos, baseia-se na queixa de um dos líderes de um grupo turco pró-al-Qaeda, alegando que o episódio de ficção manchava seu nome.

Certamente, não é coincidência que fui julgado por um juiz que não escondia sua afeição e louvor pelo partido governante, que quer amordaçar a imprensa livre de qualquer jeito. Eu disse ao juiz que se roteiristas, atores, produtores, diretores e gerentes de meios de comunicação estivessem sendo processados sob leis antiterrorismo com base em uma novela, então aquele seriam um julgamento fraudulento e politicamente motivado.

A detenção de profissionais de mídia coincidiu com o aniversário das investigações de corrupção que o governo tentava varrer para debaixo do tapete. As buscas também tentaram distrair a atenção do público dos escândalos de corrupção.

Eu sabia que a decisão sobre meu caso havia sido tomada antes mesmo de eu ter me apresentado diante do juiz para me defender. Pedi ao juiz que explicasse a qual organização terrorista eu, supostamente, pertencia e onde estavam as armas e munição da mesma.

O juiz não conseguiu responder, mas prosseguiu de qualquer forma e me prendeu para aguardar julgamento. Faz quase um mês que perdi minha liberdade. (agora mais de 5 meses, maio de 2015)

Quando confrontados com uma onda de condenação e criticismo na Turquia e no mundo sobre a detenção de jornalistas, líderes turcos descreveram a situação como parte de uma conspiração internacional. Presidente Erdoğan adotou, inclusive, uma posição hostil contra a União Europeia e disse aos líderes europeus que cuidassem de suas próprias vidas.

Há uma pressão crescente sobre a mídia e, francamente, qualquer um que, simplesmente, exerça seu direito democrático de liberdade de expressão. O direito à diferença de opinião está seriamente ameaçado na Turquia. Jornalistas críticos foram demitidos de seus empregos por telefonemas de figuras políticas a donos de meios de comunicação.

As manchetes da maioria dos jornais não são feitas em salas editoriais, mas em círculos políticos. Empresas que anunciam comerciais na mídia crítica e independente são ameaçadas pelo governo.

Uma democracia Orwelliana está em funcionamento, já que o governo transformou a organização de inteligência em uma agência de investigação partidária que se ocupa em fichar cidadãos desavisados, invadindo suas vidas privadas. Uma caça às bruxas à McCarthy foi lançada contra qualquer um que falhe em seguir a ideologia prevalecente do partido governante.

Por isso, dezenas de milhares de funcionários públicos, muitos da polícia e judiciário, foram realocados, removidos e até mesmo expurgados sem qualquer benefício. Grupos cívicos que defendem a liberdade, democracia e direitos também são alvos dessa caça às bruxas.

Meu nome é Hidayet Karaca. Faço este chamado da prisão. A liberdade de imprensa está ameaçada e a democracia foi suspensa na Turquia. O clima de medo tem um efeito estarrecedor em todos os grupos midiáticos que não estão alinhados com as políticas do governo e foram forçados ao silêncio.

Apesar desse quadro completamente obscuro, nunca perdi minha fé na democracia. Sei que estou pagando o preço por defender aquilo que acredito. Esse é o preço que, talvez, deva ser pago pela liberdade, autonomia, direitos e, acima de tudo, pela democracia.

A mídia tem a responsabilidade de informar ao público sobre o que o governo está fazendo. Estou em paz com minha consciência, pois fiz o meu melhor parar servir ao interesse público em minha capacidade de profissional da mídia. Fiz o meu trabalho e continuarei fazendo-o enquanto puder.”

A carta foi assinada por Hidayet Karaca, Cela número 6, Bloco A5, Prisão Silivri, em janeiro de 2015.

Fontes: Today’s Zaman/CNN/BBC/Informação privada

Fonte: www.brasilturquia.com.br

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