Família de Erdogan construiu rede paramilitar nacional para sustentar regime repressivo na Turquia
Traduzido e publicado pelo Voz da Turquia
O sogro do filho mais novo do presidente turco Recep Tayyip Erdogan construiu silenciosamente uma rede civil de abrangência nacional que se assemelha a uma estrutura paramilitar de fato, projetada para mobilizar apoiadores em defesa do governo em períodos de instabilidade política, de acordo com comunicações internas, registros organizacionais e informações analisadas pelo Nordic Monitor.
A rede é liderada por Orhan Uzuner, cuja filha Reyyan Uzuner, então com 17 anos, casou-se com Necmettin Bilal Erdogan, filho mais novo do presidente, em 2003. Fundada após a tentativa de golpe de bandeira falsa de julho de 2016, a organização se expandiu de forma constante ao longo da última década com o apoio de agências governamentais, municípios controlados pelo governista Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) e uma rede de organizações cívicas pró-governo.
Atuação pública e real objetivo
Atuando publicamente por meio de duas plataformas — Kardeş Kal Türkiye (Permaneçam Irmãos, Turquia) e a Türkiye Yara Sar Acil Durum İletişim ve Haberleşme Derneği (Associação de Comunicação e Assistência de Emergência da Turquia) —, a rede se apresenta como uma organização voluntária voltada a respostas de emergência, preparação para desastres e comunicações em crises.
No entanto, entrevistas com fontes confidenciais e comunicações internas indicam que suas atividades vão muito além do treinamento para socorro em desastres e incluem esforços para estabelecer capacidade de mobilização rápida entre apoiadores do governo em todo o país.
O crescimento da organização reflete esforços mais amplos do governo Erdogan para cultivar estruturas civis leais fora das instituições estatais tradicionais, especialmente após os expurgos em massa de mais de 100.000 funcionários públicos que remodelaram as forças armadas, a polícia, o judiciário e a burocracia turcos depois de 2016.
Origem e justificativa oficial
A iniciativa foi justificada no contexto de uma extensa campanha governamental que apresentou a mobilização de civis contra supostos soldados golpistas na noite de 15 de julho de 2016 como prova de que redes de cidadãos podem desempenhar papel decisivo em crises nacionais.
Críticos da narrativa governamental, porém, argumentam que a própria mobilização civil foi facilitada e dirigida por canais ligados aos serviços de inteligência, numa tentativa de criar a impressão de apoio popular maciço ao presidente Erdogan e ao seu governo.
Segundo dados oficiais, apenas uma pequena fração das forças armadas turcas — estimada em cerca de 1,5% do efetivo militar total — participou dos eventos daquela noite.
Objetivo real da rede
A criação do Permaneçam Irmãos tinha como objetivo fornecer uma camada adicional de proteção ao governo em caso de manifestações antigovernamentais em larga escala, agitação social, reação eleitoral adversa ou instabilidade política no futuro.
Uzuner e seus associados parecem ter buscado institucionalizar esse modelo mediante a construção de uma estrutura permanente de abrangência nacional, capaz de mobilização rápida por meio de filiais locais, coordenadores voluntários e redes de comunicação.
Apoio governamental e estrutura
Embora o Permaneçam Irmãos não pareça existir como entidade jurídica formalmente registrada e opere principalmente por meio de plataformas de mídia social e aplicativos de mensagens, a associação Yara Sar, também liderada por Uzuner, é uma organização oficialmente registrada e licenciada pelo Ministério do Interior.
O vice-ministro do Interior Bülent Turan, figura-chave no AKP de Erdogan, teria desempenhado papel relevante na facilitação da coordenação entre a rede e as instituições estatais, especialmente os órgãos de segurança pública.
Comunicações internas indicam que a rede mantém contatos estreitos com a Polícia Nacional, incluindo uma unidade policial especializada, além de outras agências governamentais. O grupo trabalhou com funcionários da Autoridade de Tecnologias da Informação e Comunicação da Turquia (BTK) para estabelecer canais de comunicação seguros entre os membros.
Campos de treinamento
Campos de treinamento são realizados regularmente em locais longe da vigilância pública, em diversas províncias, incluindo Bolu, Sakarya e Karabük. Os participantes recebem instrução em combate, sabotagem, vigilância, resposta a emergências, comunicações, gestão de crises e disciplina organizacional. O próprio Uzuner frequentemente participa desses campos e discursa para os presentes.
A organização nega sistematicamente as acusações de que funciona como força paramilitar ou de que oferece treinamento com armas a seus membros. No entanto, o próprio Uzuner reconheceu, em grupos restritos de WhatsApp, que os membros poderiam ter acesso a armas de fogo caso as circunstâncias exigissem.
Recrutamento e ideologia
Um fator determinante para a rápida expansão da rede parece ser sua capacidade de recrutar membros por meio de um amplo ecossistema de organizações islamistas e nacionalistas alinhadas ao governo Erdogan. Os esforços de recrutamento se concentraram em membros e apoiadores de organizações como a Cihannüma, a Associação de Ex-Alunos das Escolas Imam Hatip ÖNDER, a Fundação Birlik e a Fundação Ensar.
A presença da organização nas redes sociais, especialmente no X e no Instagram, reflete uma orientação fortemente ideológica, marcada por retórica antiocidental e expressões frequentes de apoio a grupos militantes palestinos. Seus perfis veicularam conteúdos em elogio ao Hamas e em memória de membros de sua ala militar, as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam.
Interesses comerciais
Paralelamente, Uzuner expandiu consideravelmente seus interesses comerciais ao longo da última década, beneficiando-se de contratos governamentais obtidos durante um período em que seus laços familiares com o presidente Erdogan ampliaram sua influência e seu acesso. Muitos desses contratos foram adjudicados por meio de processos licitatórios com disputa limitada ou sem concorrência.
Uma figura central na gestão e expansão das operações comerciais de Uzuner é Fatih Ural, associado de longa data e protegido seu.
Conclusão
A combinação de recrutamento em escala nacional, coordenação estreita com instituições estatais, infraestrutura de comunicação segura e alegações sobre acesso a armas de fogo continua alimentando o debate sobre se a organização representa um movimento voluntário civil ou uma força politicamente leal, concebida para proteger o governo Erdogan em momentos de crise.
À medida que a Turquia avança em direção a um futuro político cada vez mais incerto, em meio a uma perspectiva econômica em deterioração e a uma repressão crescente a grupos de oposição, as questões sobre o papel, as capacidades e os propósitos dessas organizações tendem a atrair escrutínio público cada vez maior.



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