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O que acontece na Turquia não fica na Turquia

O que acontece na Turquia não fica na Turquia
novembro 11
12:48 2016

O crescente autoritarismo da Turquia não é apenas um problema interno. É hora dos EUA ficarem espertos.

A detenção de 11 membros do parlamento de um partido político de oposição na semana passada marcou o passo mais recente na transformação da Turquia em uma ditadura de fato. Por anos, os Estados Unidos têm se equivocado sobre as consequências da repressão do Presidente Recep Tayyip Erdogan sobre seus oponentes políticos. Washington calculou que a destruição da democracia da Turquia valia ser ignorada para assegurar o apoio de Ancara na luta contra o Estado Islâmico. Mas as prisões da semana passada são uma sombria demonstração que esse risco calculado falhou de forma espetacular. Os EUA não tem escolha no momento a não ser tomar uma posição mais ativa nos problemas “internos” — precisamente porque eles não são nem um pouco internos.

O Partido Democrático Popular (HDP), ao qual os legisladores presos pertenciam, é o veículo perfeito para compreender porque os problemas políticos alcançam bem além de suas fronteiras. O partido é a tentativa mais recente de alguns representantes da inquieta minoria curda da Turquia para fazer pressão por seus direitos através da política democrática. Mas o HDP possui laços próximos com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um grupo militante baseado através da fronteira no Iraque que tem lutado com o estado turco desde os anos 80. Os líderes do HDP tentaram seguir um caminho cuidadoso de condenar alguns ataques do PKK para estabelecer credibilidade com o público turco, mas também aparecendo em manifestações públicas com imagens do PKK, e em funerais de militantes do PKK, para manter o apoio de seus constituintes curdos.

Os EUA têm considerado o PKK como uma organização terrorista desde 1997. Em 1999, capturaram seu líder, Abdullah Ocalan, e o enviaram para a Turquia, onde ele ainda está preso. Mas quando o Estado Islâmico avançou pela Síria e Iraque no verão de 2014, Washington se viu em necessidade de amigos no território. E acabou sendo que algumas das forças mais preparadas para desafiarem o Estado Islâmico no norte da Síria eram as milícias curdas, conhecidas como as Forças de Auto-Proteção (YPG), que pertenciam a um afiliado do PKK Sírio. Desde outubro de 2014, os EUA está tentando achar o equilíbrio entre apoiar as YPG em sua luta contra o Estado Islâmico e não alienar a Turquia. É um equilíbrio difícil, uma vez que esse grupo, que é o inimigo jurado da Turquia, é agora o alicerce da estratégia anti-Estado Islâmico dos Estados Unidos no norte da Síria.

Como resultado disso, Washington fez vistas grossas para Erdogan em sua repressão anti-democrática para assegurar seu consentimento. Os Estados Unidos deu de ombros quando ele fechou órgãos de mídia, prendeu jornalistas, demitiu centenas de juízes, esmagou uma investigação de corrupção e bloqueou as mídias sociais. Em julho de 2015, fecharam os olhos quando ele jogou no lixo as negociações de paz e então reiniciou a guerra com o PKK, devastando cidades na sudeste da Turquia em uma tentativa grosseira de apoiar sua posição política.

Mas apesar de todo o comedimento de Washington, sua relação com Ancara apenas deteriorou. Especialmente desde a tentativa de golpe do meio deste ano, nacionalistas linha-dura céticos quanto a OTAN e o Ocidente tem crescido no estabelecimento de segurança da Turquia. E o apoio dos Estados Unidos às YPG é uma razão fundamental para o ceticismo deles, e o do público turco como um todo. Depois de anular o golpe, Erdogan não sentiu nenhum remorso em cair matando em cima dos Estados Unidos. Até hoje, amplificados por uma mídia pró-governo feroz, as altas autoridades acusam os EUA de estarem por detrás do golpe. O medo de Washington de que criticar a repressão de Erdogan alienaria ele se provou equivocado — os EUA está perdendo a Turquia de qualquer forma.

A principal prioridade de curto-prazo dos Estados Unidos, a luta contra o Estado Islâmico, também está enfrentando uma reação. Os EUA está contando com os curdos para liderarem uma tentativa urgente de desalojar o Estado Islâmico de sua capital, Raqqa. Em vez disso, a Turquia lançou sua própria incursão na Síria, capturando uma passagem crucial na fronteira e apoiando suas próprias milícias favorecidas. Os militares da Turquia agora ameaçam as YPG a partir do norte e pode fazer com que hesitem em buscarem sua investida contra o Estado Islâmico. As prisões da semana passada são parte de uma crescente investida de Ancara para, do seu ponto de vista, restaurar a segurança nacional da Turquia contra o nacionalismo curdo em ambos os lados da fronteira. A conclusão final será o fechamento do HDP como um partido político, pois documentos pró-governo já estão apressando isso.

Em soma, provou-se impossível separar a investida de Erdogan pelo regime autocrático do papel da Turquia no combate ao Estado Islâmico — a prioridade mais alta dos Estados Unidos. As duas coisas são lados na mesma moeda.

Então o que os EUA pode fazer? Com uma nova administração prestes a entrar na Casa Branca, já é hora para uma grande reavaliação da relação. A ideia de que a Turquia é basicamente uma democracia aliada estável mas falha em uma “região difícil” está desatualizada. A Turquia está rumando para uma ditadura sob um líder carismático e imprevisível que está disposto a explorar as divisões de seu país — até e além do ponto de conflito civil — para conseguir o que quer.

Erdogan permanecerá no poder até onde se pode ver, e provavelmente pela sua vida inteira. Com isso em mente, Washington precisa injetar um pouco de honestidade em seu relacionamento com a Turquia. O primeiro passo é parar de ficar calado quanto à repressão. O protestos mudos dos Estados Unidos quanto à prisão de 142 jornalistas, o fechamento de órgãos de mídia independentes e a prisão dos líderes de oposição são insuficientes. O silêncio arruina sua credibilidade na Turquia, na Europa e no Oriente-Médio — e ela não está aceitando cortesias de qualquer forma.

O segundo passo é no nível estratégico, onde os EUA precisa deixar seus objetivos para a região claros, incluindo sua posição quanto aos direitos e autonomia dos curdos. Turcos de todas as orientações políticas que veem os Estados Unidos colaborando com as YPG não entendem os que os EUA quer, e políticos e a mídia turcos preencheram esse vácuo alegando que o objetivo americano é desmembrar a Turquia. Os Estados Unidos deve articular um plano claro para com o que pensa que a autonomia dos curdos deve se parecer. Ele já está profundamente envolvido nessa questão ao apoiar as YPG: Ele deve fazer isso honestamente em vez de fingir que não está participando. A base de qualquer plano dos EUA deve ser um acordo de paz que dure entre a Turquia e o PKK. Washington deve se engajar tanto com Ancara quanto com o PKK para tentar fazer eles voltarem à mesa de negociação e fornecer garantias diplomáticas e financeiras para um abrangente plano de paz. Se os Estados Unidos não conseguir convencer Ancara que não está conspirando para rachar a Turquia no meio, ela continuará a se distanciar da OTAN.

Por último, a longo prazo, Washington precisa construir sua política para com a Turquia sobre o reconhecimento que ela não é mais uma democracia. Sua sociedade civil, seus jornalistas independentes, e seus outros ativistas pró-democracia precisam de assistência de verdade que os Estados Unidos deve fornecer através de seus maiores instrumentos, incluindo a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). O autoritarismo de Erdogan possui raízes reais na sociedade turca, e ele pode apenas ser rechaçado por uma sociedade civil fortalecida e uma imprensa independente. Se os Estados Unidos quer um aliado seguro e estável em uma região difícil — um que seja capaz de fazer a paz com os curdos e de auxiliar na luta contra os Estado Islâmico — ele deve trabalhar a longo prazo para garantir que essas instituições se desenvolvam.

Oponentes dessa aproximação dirão que isso significa envolvimento demais nos assuntos internos da Turquia. Mas isso é exatamente do que Erdogan já acusa os EUA. Outros argumentarão que os EUA não deve tomar a responsabilidade de pôr em ordem as fronteiras bagunçadas e divisões étnicas do Oriente-Médio. Mas mesmo se não admitir, Washington já está fazendo isso através da liderança da luta contra o Estado Islâmico. E mesmo se o Estado Islâmico for derrotado, os EUA ainda ficarão responsáveis por descobrir como preservar a paz no territória que abandonar. Os turcos e os curdos ainda estarão lá. Washington já foi fundo demais nisso para voltar agora.

Nate Schenkkan

Fonte: www.foreignpolicy.com

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