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Publicação do governo turco apresenta usina nuclear na Turquia como um sucesso da estratégia energética imperial da Rússia

Publicação do governo turco apresenta usina nuclear na Turquia como um sucesso da estratégia energética imperial da Rússia
janeiro 04
16:36 2025

A edição de dezembro de 2024 da *Communication and Diplomacy*, uma revista do governo turco de propriedade da Diretoria de Comunicações – que também funciona como escritório de propaganda do presidente Recep Tayyip Erdogan –, publicou uma análise sobre o programa de treinamento de pessoal para os empregados da usina nuclear de Akkuyu (NPP), atualmente em construção em Mersin, que está programada para iniciar a produção de energia em julho de 2025. O estudo destaca a dupla funcionalidade da iniciativa de bolsas de estudos para o treinamento dos profissionais da usina, que atende tanto às necessidades técnicas da Turquia para o seu primeiro projeto nuclear quanto às ambições mais amplas da política energética e externa da Rússia.

Escrito pelos pesquisadores Büşra Selin Erdogan, assistente na Presidência para os Turcos no Exterior e Comunidades Relacionadas (*Yurtdışı Türkler ve Akraba Topluluklar Başkanlığı*, YTB), e Burak Erdogan, assistente de pesquisa da Universidade de Ancara, o artigo descreve o programa de treinamento de pessoal da Akkuyu NPP como um exemplo bem-sucedido das políticas cuidadosamente planejadas da Rússia, que estão alinhadas com suas prioridades de política externa. “É justo afirmar que a Rússia realiza uma diplomacia educacional eficaz e compatível com seus próprios interesses por meio do programa de bolsas, executado de forma meticulosa”, concluem os autores. A iniciativa demonstra como a Rússia combina sua política energética com a diplomacia educacional como parte de sua estratégia “imperial”, utilizando essas ferramentas para fortalecer sua influência sobre parceiros-chave como a Turquia.

O programa, iniciado em 2011, já treinou mais de 319 engenheiros turcos em universidades russas, que agora trabalham na Akkuyu, localizada na costa do Mediterrâneo, no sul da Turquia. Segundo o estudo, isso garante que profissionais altamente qualificados, familiarizados com os padrões e práticas energéticas russas, sejam o núcleo da força de trabalho nuclear da Turquia. Essa estratégia reforça a presença operacional da Rússia no projeto Akkuyu e sublinha sua abordagem calculada para expandir sua influência. “Por meio de um planejamento meticuloso, a Rússia garante que trabalha com recursos humanos confiáveis e familiarizados”, destacam os autores, descrevendo como o programa assegura tanto a expertise técnica quanto a consolidação dos laços bilaterais.

Um aspecto único do programa é sua profundidade cultural e educacional. Os participantes são obrigados a aprender russo e a se adaptar ao ambiente acadêmico das instituições russas. Isso não só os prepara para as exigências técnicas do setor nuclear, mas também promove uma integração mais profunda com as normas profissionais e culturais russas. O estudo aponta que essa imersão aumenta o poder brando da Rússia, criando uma força de trabalho na Turquia moldada por metodologias e estruturas culturais russas.

A análise, no entanto, evita descrever o programa como uma ameaça direta à soberania turca. Em vez disso, apresenta uma perspectiva mais equilibrada, reconhecendo os benefícios mútuos da iniciativa enquanto destaca seu alinhamento com os interesses estratégicos da Rússia. Os autores ressaltam como a abordagem educacional da Rússia serve para inserir sua influência em setores críticos como o da energia, observando que esse equilíbrio cuidadoso permite a Moscou consolidar sua posição como um ator-chave nas ambições nucleares da Turquia.

O momento do programa é particularmente notável. A primeira licença do reator Akkuyu foi concedida em 2018, mas o programa de treinamento de pessoal começou já em 2011. Isso sugere que a iniciativa fazia parte de uma estratégia de longo prazo para estabelecer uma base sólida para o envolvimento russo no setor nuclear turco. Ao iniciar o programa com antecedência, a Rússia garantiu que o pessoal turco seria treinado e estaria pronto para operar dentro de um sistema fortemente influenciado pela expertise e práticas russas.

O artigo também contextualiza a iniciativa Akkuyu dentro da histórica dependência da Rússia em usar a diplomacia educacional como uma ferramenta de influência. A Rússia tem há muito tempo utilizado suas instituições acadêmicas para projetar seu poder brando internacionalmente. O programa Akkuyu se encaixa em uma estratégia mais ampla que inclui o treinamento de estudantes de mais de 65 países em disciplinas nucleares. Embora isso melhore a reputação global da Rússia na educação nuclear, o estudo destaca que o papel da Turquia como parceira em um projeto tão estrategicamente significativo torna os programas da Akkuyu particularmente impactantes para a política externa russa.

Uma das principais observações do estudo é a interconexão deliberada entre as estratégias energética e educacional da Rússia. Ao integrar esses dois domínios, a Rússia se posiciona como um parceiro indispensável para a jornada nuclear da Turquia. Os autores enfatizam que essa abordagem dual não apenas atende às necessidades operacionais da Rússia, mas também garante laços culturais e profissionais duradouros entre as duas nações. Essa estratégia sofisticada exemplifica como Moscou utiliza tanto o poder duro quanto o brando para manter sua influência sobre seus parceiros.

O texto argumenta que, embora o programa de treinamento seja mutuamente benéfico, há riscos potenciais para a Turquia. A crescente dependência da Turquia na expertise russa no setor nuclear pode comprometer sua capacidade de desenvolver e gerenciar independentemente suas capacidades nucleares. Essa dependência pode limitar a autonomia estratégica da Turquia e aumentar sua exposição a influências externas em um setor crucial. Embora isso não seja explicitamente declarado, o artigo sugere que há implicações de longo prazo para o setor energético turco.

Além disso, os aspectos culturais do programa devem ser considerados. Embora aprender russo e adaptar-se a ambientes acadêmicos russos não sejam inerentemente negativos, esses requisitos podem levar a laços culturais mais fortes entre a força de trabalho turca e as instituições russas. Ao longo do tempo, isso pode influenciar as políticas domésticas da Turquia e suas relações internacionais, potencialmente alinhando-as mais de perto com as perspectivas e interesses russos. Isso é algo que os formuladores de políticas devem considerar como parte das implicações mais amplas dessa parceria no setor de energia nuclear.

A Turquia anunciou em 2022 que não seria acionista da Akkuyu NPP, apesar de suposições anteriores. Foi esclarecido que a Turquia não está contribuindo para os custos de construção, e seu envolvimento está limitado a um contrato obrigatório de compra de energia elétrica, sem planos de adquirir participação na usina.

O presidente Erdogan não considera a dependência da energia russa como uma preocupação nacional. Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2024 (COP 29), em Baku, em 12 de novembro, Erdogan destacou o compromisso da Turquia em alcançar a neutralidade de carbono até 2053, apontando a energia nuclear como uma peça central dessa estratégia. Ele anunciou a meta de atingir uma capacidade de 20.000 megawatts de energia nuclear até 2050, revelando planos para outras duas instalações nucleares: uma em Sinop, na costa do Mar Negro, e outra na região da Trácia.

Para a usina de Sinop, a Turquia pretende continuar sua parceria com a Rússia, replicando o modelo de Akkuyu. Em uma entrevista à rede russa RT, em 27 de outubro, Alexey Likhachev, chefe da Rosatom, confirmou que Erdogan convidou a organização a liderar o projeto de Sinop. Segundo relatos, Erdogan já teria chegado a um acordo sobre o assunto com o presidente russo Vladimir Putin.

Fonte: Turkish gov’t publication frames nuclear plant in Turkey as a success for Russia’s imperial energy strategy – Nordic Monitor

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