Professor turco preso por suposto vínculo com Movimento Hizmet relata perda da esposa e do filho ao fugir do país
Um ex-professor turco encarcerado por suposta ligação com o movimento Hizmet falou publicamente pela primeira vez sobre a perda de sua esposa e de seu filho de 3 anos durante uma tentativa fracassada de fugir da Turquia — uma tragédia que foi seguida por mais de seis anos de prisão e uma batalha judicial que chegou ao principal tribunal de direitos humanos da Europa.
Hasan Aksoy, ex-professor de literatura exonerado do serviço público após a tentativa de golpe na Turquia em 2016, afirmou que sua esposa e seu filho estavam entre as sete pessoas que morreram quando um barco superlotado de migrantes naufragou no Mar Egeu em julho de 2018, durante a tentativa de alcançar a ilha grega de Lesbos.
Aksoy contou que foi detido após sobreviver ao naufrágio e posteriormente condenado a mais de dez anos de prisão por acusações relacionadas ao terrorismo, vinculadas a supostos laços com o movimento Hizmet.
O Contexto da Perseguição ao Movimento Hizmet na Turquia
O presidente turco Recep Tayyip Erdoğan passou a perseguir os participantes do movimento Hizmet — inspirado pelo falecido clérigo muçulmano Fethullah Gülen — desde as investigações de corrupção em dezembro de 2013, que implicaram o próprio Erdoğan, membros de sua família e aliados próximos. Ele classificou as investigações como uma conspiração do Hizmet e, em maio de 2016, designou o movimento organização terrorista, intensificando a repressão após a tentativa de golpe em julho do mesmo ano, da qual acusou Gülen de ser o orquestrador. O movimento nega qualquer envolvimento no golpe ou em atividades terroristas.
Em entrevista publicada pelo portal de notícias TR724, Aksoy descreveu quase dois anos vivendo na clandestinidade após ser demitido, a travessia marítima fatal que custou a vida de sua família e os 79 meses que passou atrás das grades antes de ser solto em fevereiro de 2025. Seu caso está atualmente sob análise do Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH), onde ele argumenta que sua condenação violou seu direito a um julgamento justo e o puniu por atos que não eram claramente crimes à época.
Demissão, Fuga e a Tragédia no Egeu
Aksoy trabalhava como professor de literatura na província norte de Bartın quando foi suspenso e, posteriormente, exonerado por meio de um decreto de emergência emitido após a tentativa de golpe. Ele e a família se mudaram para Mersin, cidade no litoral mediterrâneo, onde viveram escondidos por quase dois anos enquanto ele trabalhava em empregos temporários para sustentá-los.
Sem perspectivas de reconstruir a vida e com medo de ser preso, a família decidiu deixar a Turquia. No dia 28 de julho de 2018, Aksoy, sua esposa Sena e seu filho Yusuf Baha embarcaram em um bote inflável que partia da costa oeste da Turquia, perto de Ayvalık. A embarcação carregava 16 pessoas, incluindo várias crianças.
O barco virou na madrugada.
Aksoy relatou que os passageiros contataram as autoridades turcas após o naufrágio e permaneceram vivos na água por algum tempo aguardando socorro. Ele alegou que o resgate foi atrasado mesmo diante de sucessivos chamados de emergência — uma afirmação que não pôde ser verificada de forma independente.
Enquanto os passageiros lutavam para se manter à tona, sua esposa o encorajou a concentrar-se em salvar o filho. Ele passou quase uma hora segurando a criança acima da água, até perceber que o menino havia morrido. Sua esposa também estava entre as vítimas.
Prisão, Trauma e a Luta nos Tribunais
Aksoy foi detido logo após chegar à costa. Ele afirmou que policiais o pressionaram durante o interrogatório a fornecer informações sobre outros supostos membros do movimento, alertando que ele não poderia comparecer ao funeral de sua esposa e filho caso se recusasse. Um tribunal ordenou sua prisão preventiva.
Apesar dos apelos de defensores de direitos humanos e parlamentares da oposição, Aksoy disse que não teve permissão para se despedir da esposa e do filho, enterrados no norte da Turquia.
Ele foi condenado com base em evidências que, segundo seu relato, incluíam o suposto uso do aplicativo de mensagens criptografadas ByLock, uma conta no extinto Banco Asya, registros telefônicos e participação em grupos de discussão religiosa. Desde o golpe de 2016, o governo turco passou a utilizar esses elementos — como ter conta no Banco Asya, usar o ByLock ou assinar publicações ligadas ao movimento — como critérios para identificar e prender supostos participantes do movimento Hizmet por acusações de participação em organização terrorista. Tais provas têm sido contestadas em tribunais turcos e internacionais.
Durante o período de encarceramento, Aksoy relatou ter sofrido depressão, ataques de pânico e traumas recorrentes ligados à morte de sua esposa e filho. Ele foi libertado em 25 de fevereiro de 2025, após cumprir 79 meses de pena.
“Para Que Não Seja Esquecido”
Após a soltura, Aksoy afirmou ter sido submetido a novos interrogatórios pelas autoridades e acabou deixando a Turquia para se estabelecer na Alemanha. Ele disse ter decidido falar publicamente porque quer que a morte de sua esposa, de seu filho e de outros que morreram tentando fugir da Turquia durante a repressão pós-golpe seja lembrada.
“Meu propósito ao contar esta história é garantir que o que aconteceu não seja esquecido e que fique registrado para a história”, declarou.



There are no comments at the moment, do you want to add one?
Write a comment