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Governo turco assume controle de importante emissora de oposição em meio à crescente pressão sobre a imprensa

Governo turco assume controle de importante emissora de oposição em meio à crescente pressão sobre a imprensa
outubro 29
06:18 2026

Turkish Minute — publicado originalmente em 14 de outubro de 2026.

Imagem de destaque: ilustração conceitual gerada por inteligência artificial (OpenAI).

O governo turco assumiu o controle da popular emissora de notícias de oposição Halk TV por meio de administradores nomeados pelo Estado na manhã de quarta-feira, interrompendo suas transmissões ao vivo enquanto a polícia fazia uma operação na sede do canal em Istambul, informou a emissora.

A Procuradoria-Chefe de Istambul afirmou que a operação fazia parte de uma investigação sobre o proprietário da Halk TV, Cafer Mahiroğlu, por suspeitas de pagamento de propinas, fraude em licitações e lavagem de dinheiro. Os promotores determinaram a detenção de 17 suspeitos, dos quais 11 foram levados sob custódia, informou a agência de notícias DHA.

Mahiroğlu condenou a operação na quarta-feira e afirmou que sete integrantes de sua família estavam entre os detidos.

“Hoje é um dia sombrio para a Turquia. O direito do público à informação está sendo confiscado por razões políticas”, disse ele em um vídeo publicado no X.

“A Halk TV pertence ao povo turco. Não pode ser tomada por meio de um interventor.”

Cafer Mahiroğlu (@cafermahiroglu), 14 de outubro de 2026

O Fundo de Seguro de Depósitos de Poupança (TMSF), órgão estatal, foi nomeado administrador da Halk TV e de empresas ligadas a Mahiroğlu.

A polícia bloqueou a rua em frente à sede da emissora e impediu a entrada de funcionários enquanto agentes faziam buscas no prédio. A repórter da Halk TV Gamze Altunay afirmou que centenas de policiais participaram da operação.

“Foi nomeado um interventor para a Halk TV, o nosso canal! As ruas foram bloqueadas por centenas de policiais e veículos. Os policiais ainda estão no prédio. Não nos deixam entrar.”

Gamze Altunay (@gamzealltunay), 14 de outubro de 2026

A Halk TV informou que o editor-chefe Suat Toktaş pediu ao administrador que assumia a emissora que permitisse a continuidade da programação ao vivo, mas o pedido foi rejeitado. Toktaş também recusou uma proposta para trabalhar com a nova direção, classificando a intervenção como ilegal. Posteriormente, o site de notícias MediaRadar informou que imagens gravadas de um programa da Halk TV continuavam no ar.

Os promotores alegam que foram pagos 14,46 milhões de liras turcas, cerca de US$ 293 mil, em propinas relacionadas a licitações da Prefeitura Metropolitana de Izmir e que os recursos foram transferidos para empresas pertencentes a Mahiroğlu ou ligadas a ele. Para sustentar as acusações, citaram relatórios de inteligência financeira e depoimentos de testemunhas.

Os promotores também afirmaram que Mahiroğlu já era procurado por suspeita de fraude em licitações em outra investigação, relativa à Prefeitura Metropolitana de Istambul, e que havia deixado a Turquia em 10 de março de 2025.

Izmir, a terceira maior cidade da Turquia e um antigo reduto da oposição, havia sido governada pelo Partido Republicano do Povo (CHP) por mais de duas décadas. O prefeito Cemil Tugay, eleito pelo CHP em 2024, filiou-se em 7 de outubro ao Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), do presidente Recep Tayyip Erdoğan, após deixar o CHP em junho.

Mahiroğlu anunciou a operação nas redes sociais, dirigindo críticas ao líder do CHP, Kemal Kılıçdaroğlu, e a seus aliados. Sua publicação inicial não abordou as acusações financeiras.

Dias antes da intervenção, a Halk TV havia sido alvo de críticas de Kılıçdaroğlu, reconduzido em maio à liderança do CHP por uma decisão judicial que anulou o congresso partidário no qual ele havia perdido o comando em 2023.

Em entrevista à emissora KRT em 9 de outubro, Kılıçdaroğlu acusou a Halk TV de divulgar notícias falsas “24 horas por dia” e questionou por que seu proprietário, Mahiroğlu, permanecia no exterior.

Ele também afirmou que seus colegas haviam apresentado uma reclamação ao órgão regulador de radiodifusão RTÜK, que respondeu que a questão estava fora de sua competência.

Mahiroğlu rejeitou as críticas, acusando Kılıçdaroğlu de atacar a imprensa independente e políticos eleitos da oposição.

Özgür Özel, líder do oposicionista Novo Partido, condenou a operação e a nomeação de um interventor, afirmando que uma ação desse tipo contra uma emissora de televisão era algo que somente ditadores fariam.

A intervenção coincidiu com o início da defesa do prefeito preso de Istambul, Ekrem İmamoğlu, em um julgamento por corrupção envolvendo suspeitas de pagamento de propinas, fraude em licitações e lavagem de dinheiro na prefeitura.

Özel questionou o momento escolhido, apontando tanto o julgamento quanto as cobranças públicas por responsabilização em um escândalo de fundos de investimento que envolve suspeitas de manipulação de mercado e conexões políticas e que deixou investidores sem conseguir recuperar suas economias.

Özel e outros 90 parlamentares deixaram o CHP em julho para fundar o Novo Partido, após a recondução de Kılıçdaroğlu à liderança da legenda.

Mais tarde, na quarta-feira, as autoridades também determinaram o bloqueio do acesso às contas da Halk TV no YouTube, X, Facebook, Instagram, TikTok e Telegram, informou o EngelliWeb, projeto de monitoramento da censura da Associação pela Liberdade de Expressão (İFÖD).

A ordem abrange o canal da emissora no YouTube, com 2,59 milhões de inscritos; a conta no X, com 3 milhões de seguidores; a página no Facebook, com 1,5 milhão de seguidores; a conta no Instagram, com 1,2 milhão de seguidores; a conta no TikTok, com 256 mil seguidores; e o canal no Telegram, com 5.247 inscritos.

As contas foram alvo de medidas com base no artigo 8/A da Lei de Internet nº 5651 da Turquia, que permite a remoção de conteúdo ou restrições de acesso por motivos que incluem segurança nacional, ordem pública, segurança pública, proteção da vida e da saúde e prevenção de crimes.

O EngelliWeb informou que as plataformas ainda não haviam cumprido as ordens de tornar as contas indisponíveis para usuários na Turquia.

“Após a nomeação de um interventor para a Halk TV e a interrupção de suas transmissões, o acesso às suas contas nas redes sociais foi bloqueado: conta no X com 3 milhões de seguidores; canal no YouTube com 2,59 milhões de inscritos; página no Facebook com 1,5 milhão de seguidores; conta no Instagram com 1,2 milhão de seguidores…”

EngelliWeb (@engelliweb), 14 de outubro de 2026

A intervenção na Halk TV ocorre em meio à crescente pressão sobre a imprensa independente na Turquia, após o recente bloqueio do site de notícias T24 e amplas restrições às contas no X de jornalistas, veículos de comunicação e organizações de direitos humanos.

Em 30 de setembro, uma ordem de um tribunal de Istambul bloqueou o acesso ao site e às contas do T24 nas redes sociais por causa de uma cobertura que os promotores descreveram como “propaganda LGBT”, citando 118 conteúdos publicados ao longo do ano anterior. O T24 afirmou que a decisão ocorreu após uma campanha de difamação on-line contra o veículo.

A Associação pela Liberdade de Expressão (İFÖD) informou que pelo menos 1.270 contas no X foram alvo de ordens de bloqueio em setembro, e que a plataforma posteriormente tornou cerca de 90% delas indisponíveis na Turquia.

Entre os atingidos estavam jornalistas, veículos de comunicação, acadêmicos, economistas e organizações de direitos humanos. A conta da própria İFÖD e a de seu projeto de monitoramento da censura, EngelliWeb, também foram alvo de ordens de bloqueio em outubro.

A Halk TV também enfrentou investigações criminais e sanções relacionadas às transmissões. Toktaş foi preso em janeiro de 2025 em razão da divulgação de uma conversa telefônica com um perito nomeado pela Justiça.

Um tribunal determinou sua libertação em março, após 34 dias de prisão preventiva, e o absolveu, assim como quatro colegas, da acusação de tentar influenciar agentes do Judiciário.

Uma acusação separada, relativa à gravação e à divulgação da conversa, foi encaminhada para mediação.

A Halk TV, uma das principais emissoras de notícias da Turquia, começou a transmitir em 10 de janeiro de 2005. O canal conquistou uma grande audiência com a cobertura ao vivo dos protestos antigovernamentais do Parque Gezi, em 2013, que começaram em reação a planos de reurbanização de um parque em Istambul e se transformaram em manifestações contra o governo em todo o país.

Mahiroğlu comprou a emissora em 2020.

A repressão à imprensa na Turquia se intensificou após uma tentativa fracassada de golpe em julho de 2016, quando o governo usou decretos de emergência para fechar jornais, emissoras de televisão e rádio e editoras. Até o fim de 2017, cerca de 166 veículos de comunicação e editoras haviam sido fechados e seus bens, confiscados sem indenização, informou o escritório de direitos humanos da ONU.

A Turquia ficou em 163º lugar entre 180 países e territórios no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, da organização Repórteres Sem Fronteiras, caindo da 159ª posição em 2025. A entidade estima que 90% dos veículos de comunicação nacionais estejam sob controle do governo.

Fonte: Turkish Minute.

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